A imprensa portuguesa tem feito eco de várias competições de surf em Portugal, em particular no santuário para a modalidade que é a Costa Peniche/Ericeira. Alguns apontamentos: 1. A Associação de Turismo de Lisboa e a Câmara Municipal de Mafra pretendem converter as praias da Ericeira numa reserva mundial de surf. É a organização americana "Save the Waves" que promove esta 'certificação'. A ser aceite a Ericeira será a segunda reserva mundial depois de Malibu, na costa da Califórnia. A ser assim, a Costa Oeste de Lisboa/Cascais/Sintra é vista como o prolongamento natural da Serra de Sintra - que é Património Mundial da Unesco. Um contínuo de terra e mar de eleição. 2. A propósito do Rip Curl Pro Peniche, deste último Outubro, Pedro Bicudo, professor do IST, estima que a onda de 'supertubos' ali existente tem um valor económico mínimo de 100 milhões de euros. Peniche é visitada por mais de 100 000 turistas por ano em razão daquela onda. Diz ainda o professor: "…esta onda é como o Monte Branco dos Alpes". São receitas. São empregos. 3. Opinião semelhante tem Pedro Adão e Silva: "Temos de produzir bens que os chineses não saibam imitar e que os alemães não saibam produzir com maior qualidade. O que não podem imitar e produzir é uma onda como os Supertubos. Isso é impossível". E acrescenta "É mais fácil apanhar o avião em Londres para Lisboa do que ir à Indonésia ou à Austrália". Na Europa, todo o ano. E "uma onda de qualidade, desde que preservada, nunca será deslocalizada". 4. O mar não é apenas pescas, portos, construção naval. A Economia do Mar, no seu conteúdo concreto, inclui as áreas emergentes, como as energias e as biotecnologias, mas também surf e intersecção com o turismo - numa das áreas mais fortes deste que é o turismo-natureza, o turismo ambiental. Tudo isto fez-me recordar a controvérsia sobre a Madeira como destino privilegiado de Surf com as suas 'big waves' únicas na Europa. Recordei-me do documentário LOST JEWEL OF THE ATLANTIC : a história de uma batalha travada no Jardim do Mar 'onde surfistas tentaram fazer valer os seus direitos contra o governo guiado pela ganância' (segundo o site da organização, citado na imprensa). Recordei ainda as declarações infelizes de responsáveis públicos madeirenses sobre os 'turistas de pé descalço' e outras barbaridades. Lembrei-me também de uma população mal informada ou manipulada a perseguir ambientalistas que defendiam aquela onda do Jardim do Mar. Quando o turismo é considerado 'a indústria da hospitalidade' é estranho ver tais actos e declarações numa terra tradicional de turismo. E revela falta de visão. É tempo para recordar, aprender com os erros e não repeti-los. Recordar, em particular, que as obras públicas destruíram o património natural de ondas não apenas do Jardim do Mar mas também do Lugar de Baixo e da Ponta Delgada. Em contraponto, Peniche prescindiu de um porto de águas profundas para preservar o seu património natural de ondas - uma futura reserva mundial.
Maximiano Martins