Enquanto agente cultural, nado e criado numa colectividade que se apresta para cumprir cem anos de actividade, pude perceber, donde vem o clique, a paixão, a força que faz mover montanhas em busca de um objectivo. Uma sala a abarrotar de instrumentos, um quadro negro riscado, com umas quantas claves, paredes repletas de fotos criteriosamente alinhadas e identificadas, rostos daqueles que já partiram e um enorme respeito e alegria de os ter por perto, marcaram profundamente a minha primeira ida ao Recreio Musical União da Mocidade. Hoje, passados trinta e muitos anos, faltam-me as palavras para expressar o que sinto, mas sei que vem daí a energia que nos empurra, que nos transporta e que faz de nós amantes e defensores do património cultural que a todos pertence. Vem daí a energia que fez e faz com que, todos juntos, tivéssemos levado a Orquestra de Bandolins da Madeira ao Teatro Nacional São Carlos, ao jubileu da rainha de Inglaterra, à Áustria, Espanha, França e que nos permitiu editar um DVD com o Carlos Guilherme, indiscutivelmente um dos melhores tenores portugueses. Vem certamente daí a energia que faz com que a orquestra leve já dezoito anos consecutivos a realizar concertos semanais na região, sempre com muitos turistas e sempre com entradas pagas. Do que não tenho quaisquer dúvidas, é que vem daí a nossa determinação em seguir uma gestão financeira sustentável, assente no rigor e qualidade, norma aliás, pela qual e se regiam todas as colectividades, antes de Abril 74. Pesquisas levadas a efeito por distintos musicólogos nacionais e estrangeiros concluíram ser a Região uma verdadeira preciosidade em tradições musicais, como se comprova pelos manuscritos entretanto publicados. Quando vejo ao abandono colectividades com mais de meio século de existência, grupos tradicionais com largo historial, bandas filarmónicas com cento e muitos anos e quando por outro lado se assiste à construção de infra-estruturas culturais, despidas de quaisquer raízes humanas, estamos não só a inverter as prioridades mas também a destruir um dos mais importantes produtos turísticos, a par do clima e paisagem, que temos para oferecer a quem nos visita.

Eurico Martins, Director da Orquestra de Bandolins da Madeira