Cada vez mais compreendo o porquê dos elevados níveis de abstenção. Durante dias, aguardamos atentos o final da discussão sobre o Orçamento de Estados. Seguimos as emissões em directo e cada vez que Eduardo Catroga ou Teixeira dos Santos saíam da sala das negociações, o bater do coração acelerava. Queríamos saber o desfecho, queríamos saber se vamos ter fazer ainda mais um buraco no cinto ou se não resta mais solução a não ser a vinda do FMI. E a expectativa não deu em nada. PS e PSD chegaram a um pretenso acordo, mas vão ter de ser encontradas alternativas para tentar emagrecer mais 500 milhões de euros. Afinal, tanta discussão, tantas horas de emissão consecutiva, não deram em nada. O país ficou em suspenso a assistir a mais um jogo da corda, em que mais uma vez, ninguém conseguiu sair vencedor. Críticas de um lado, críticas de outro, mas a verdade é que nem nestes dias, as duas forças político-partidárias de maior peso em Portugal, conseguiram por de lado velhos e novos diferendos para fazer aquilo que é melhor para o país e para os portugueses. Pelo contrário, ainda conseguiram aumentar o fosso que as separa. As tricas políticas lembram-me às vezes as brigas de crianças em idade pré-escolar, de “o meu brinquedo é melhor que o teu”, mas “o meu é mais caro que o teu”… E ao que se assiste hoje em Portugal, assiste-se também um pouco por todo o mundo democrático. Vale tudo na luta pelo poleiro, principalmente iludir o povo com promessas vãs ou atemorizá-lo com cenários dantescos. “Vivemos tempos difíceis, e não o fim dos tempos. E não temos de ser inimigos”, apregoava anteontem o humorista norte-americano Jon Stewart numa espécie de ‘comício’, numa espécie de ‘debate político’ realizado ontem com outro comediante, Steven Colbert, perante dezenas de milhares de pessoas em Washington. A iniciativa juntou mais público do que qualquer um dos mais recentes comícios políticos nos EUA e fez furor no resto do mundo onde não passou despercebido nas rádios, televisões ou jornais. Stewart defendeu a recuperação da sanidade, Colbert a manutenção do medo. Ambos saíram vencedores, porque conseguiram passar a mensagem. E a mensagem foi simples. Com um pouco de humor, foram faladas verdades e levantadas questões. De uma forma simples, sem palavreados difíceis de perceber, sem teorizar demasiado, foi pedido que as pessoas tomassem nas suas mãos um poder que sempre foi delas: o de mudar o futuro. As pessoas estão ávidas por recuperar a sanidade, ao nível pessoal, como cidadãos, como eleitores, como parte de um sistema em que são o principal garante. Cada vez mais compreendo o porquê dos elevados níveis de abstenção e cada vez mais espero que rapidamente as pessoas percebam que, em democracia, o povo tem sempre a primeira e a última palavra.