Ronaldo, o menino que começou a jogar no campo pelado do Andorinha e pelas ruas da Quinta Falcão, costuma dizer, com aquele sorriso pintado de infância, que não gosta de perder nem a feijões. O homem que é hoje o melhor jogador do mundo, não se deixou intimidar por um mau começo, pela pequenez do lugar, pelas dificuldades. Recusou sempre perder e perder-se no que muitos podem entender como um pré-destino, uma linha traçada, um rumo certo. O catraio de cabelo aos caracóis tinha um trunfo e agarrou-o com todas as forças, as que tinha, as que teve de conquistar e as outras que surgem apenas dessa equação simples entre acreditar e querer. São estas e não outras as grandes ‘fintas’ de Ronaldo. Maiores que os golos, maiores do que aquela velocidade que traça o percurso no relvado e termina em vitória. Mais forte do que a trajectória de uma bola, é a viagem de um coração e de uma alma que não se deixam vencer pela realidade, mesmo por aquela que parece incontornável, quase congénita, quase que colada como uma segunda pele. É que Ronaldo não gosta de perder nem a feijões. E nesta confissão simples cabe um mundo e o mundo do que somos e do que podemos ser. Nestes tempos de incertezas, pessimismos e dificuldades, deveríamos ser mais como este homem, quase miúdo ainda, que se recusa a perder, seja a feijões, a berlindes ou a outras coisas tão valiosas como estas. É que a vida, o país e o universo faz-se mais da soma de feijões do que de grandes desígnios ou de enormes impossibilidades. O nosso problema, quase sempre, é pensarmos que mudamos assim tanto com os anos, quando, afinal, o melhor era continuar a pensar que jogamos com feijões ou com berlindes e que estes são coisas tão importantes como as maiores. O que nos acontece, na maior parte das vezes, é que perdemos a perspectiva, aquela perspectiva de quando éramos pequenos e o mundo um universo de possibilidades. Esse quintal onde podíamos ser astronautas, cowboys, heróis de banda desenhada ou simplesmente correr de coração e braços abertos rumo a uma vitória só nossa, porque só dependia de nós e de mais ninguém. Na infância somos nós que fazemos o mundo e não ao contrário. Pena é que depois nos esqueçamos disso e passemos mais a acreditar num desígnio comum, ditado por alguém que nunca somos nós, e talhado não com o tamanho certo de uma vitória, mas sim com o tamanho certo de uma derrota que se anuncia antes de o ser. Assim, vivemos nós e o país a perder a feijões todos os dias.