Enquanto escrevo este apontamento para a nova rubrica "Madeira vista de fora", como tantas vezes, de soslaio, através da minha janela, no Alto da Barra, olho o velho Forte do Bugio, onde as águas do rio Tejo se misturam com o Oceano Atlântico e que hoje, batido pelas ondas trazidas pelo sudoeste, talvez vindas da Madeira, me faz sentir mais próximo da minha Terra. Embora desde 2001 escreva com regularidade para o Diário, esta é a primeira vez que acontece no âmbito do projecto jornalístico, iniciado neste 135º ano da sua publicação, o qual visa estar mais próximo do leitor e mais aberto, reafirmando a sua independência, por que continua a pugnar, não obstante os "custos" que isso pode acarretar. Vem assim a propósito evocar também a circunstância de, já lá vão uns setenta anos, ser leitor do Diário, com interesse continuando, mesmo longe da Madeira, a acompanhar a vida do jornal, inclusivamente e com uma certa preocupação, como mero espectador, a assistir a atitudes e episódios menos felizes, desencadeados com o objectivo de fazer perigar a sua continuidade, em oposição à determinação interna dos seus quadros e trabalhadores. Exemplo disso mesmo, recordo uma acção que em meados de 2003, transbordou para a comunicação social do continente, rotulada de "cruzada contra os ingleses", mas que não era mais do que uma tentativa de silenciar o Diário, ainda que o tiro fosse assestado contra os ingleses e procurasse - como então escrevi em Opinião [Diário de 31.08.2003] - fazer crer serem os "ingleses que desde o século XIX se estabeleceram na Madeira, responsáveis por crimes hediondos contra a Madeira e os Madeirenses", um absurdo inqualificável, ignorando a "realidade do que foi o investimento que muitos deles fizeram na Madeira, onde reinvestiram e continuam a investir, apostando no desenvolvimento desta terra que a consideram também sua, tal como todos nós os descendentes dos Portugueses que povoaram a Madeira". Perante a insensatez, a irresponsabilidade e muita leviandade que persiste, não sem alguns interesses encapotados, vai sendo tempo, para que o bom senso retorne e, como há menos de um mês aqui escrevi, apareça a tal "solução equilibrada que mercê de uma análise criteriosa, com sentido das realidades, ponha termo a diferendos e a certos excessos" de ambas as partes. Olhando de novo pela janela, antecipando o rodar do vento, levada pelas ondas desde o Bugio, oxalá, essa seja a mensagem que chegará e será entendida por todos - e para todos - os Madeirenses.

Francisco Leite Monteiro