Restaurar em todo o seu esplendor o retábulo da capela-mor da Sé do Funchal irá contribuir certamente para melhorar a nossa auto-estima enquanto povo e esperança num futuro melhor, pois trata-se de uma obra de arte ligada ao culto, mas também à força e empenho dos portugueses na grande empresa dos Descobrimentos. O Retábulo do Altar-Mor da Sé do Funchal, atribuído ao Mestre da Lourinhã e com temática cristológica e mariana é uma peça magistral e única do tempo de D. Manuel I que se encontra ainda praticamente intacta e no local de origem. Por estes motivos assume desde logo uma enorme importância na História da Arte Portuguesa. Devido ao seu escurecimento e dificuldade de observação, em termos de conjunto pouco se sabe: não abundam estudos monográficos existindo essencialmente referências ou pequenos artigos. Este belíssimo espécime chegou mais ou menos intacto até aos nossos dias e adquire uma forma de conjunto estético mais alargado - que engloba certamente o Cadeiral e a pintura primitiva do tecto artesoado - contribuindo para a harmonia da Capela-mor que terá ficado a expensas do rei Venturoso. O conjunto do retábulo encontra-se estável e é constituído por vários blocos de madeira assemblados entre si, por cavilhas metálicas e ou por cavilhas de madeira. A superfície dourada é original e a monocromia azul no fundo é fruto de repinte, sendo o original um azul esverdeado/acinzentado como os céus das pinturas. Em algumas tábuas, como por exemplo, “A última Ceia” encontramos uma junta muito aberta na união das tábuas, camada cromática com boa adesão ao suporte, sujidades aderentes, vernizes alterados, marcas de fumos de velas, de estarina, de pregos e alfinetes, incisões, retoques alterados e grande zona de repinte grosseiro. Noutro painel, “A Missa de São Gregório” é visível vestígios de ataque de insecto xilófago. A escultura existente no retábulo encontra-se estável, sendo visível a união dos vários elementos que a constituem, com sujidade superficial. Ao nível cromático verifica-se a existência de pequenas lacunas, algumas intervencionadas, falta de adesão pontual das camadas de preparação, bólus, ouro e policromias. É urgente dignificar este conjunto através da sua conservação e restauro. Uma intervenção In situ sem nenhum risco para as pinturas é o caminho ideal. Sabe-se que o tempo de crise dificulta a mobilização de dinheiros públicos. Mas o principal é não baixar os braços e procurar mecenas para esta importante intervenção. A responsabilidade é de todos, incluindo a sociedade civil. Restaurar em todo o seu esplendor o retábulo da capela-mor da Sé do Funchal irá contribuir certamente para levantar a nossa auto-estima enquanto povo e esperança num futuro melhor, pois trata-se de uma obra de arte ligada ao culto, mas também à força e empenho dos portugueses na grande empresa dos Descobrimentos.

Raquel Fraga, Historiadora de Arte