Donato Macedo Marcelo Rebelo de Sousa estava certo quando se prestou a ser um mocinho de recados de Belém, revelando a encomendada "caixa jornalística" na TVI. O Cavaco-presidente tornou-se esta semana num esquizofrénico recandidato num discurso demasiadamente previsível e com os mesmos argumentos. Uma candidatura "à Cavaco", vinda de um enigma enclausurado e bem cozinhado em lume brando. Repare-se no local novamente escolhido: o CCB tal como em 2005. Um símbolo do cavaquistão cimentado e um dos expoentes da derrapagem financeira, que dos 6 milhões de contos orçamentados, resvalou para os 40 milhões de contos, um exemplo do rigor do Sr. Professor Cavaco. Não será pois à toa, que agora esteja mais comedido e se comprometa a gastar apenas 50% daquilo que pode despender por lei, na actual campanha. Não deixa de ser demagógico e popular, mas fica sempre bem. Se há palavra que caracteriza o seu mandato, é o presidente do "silêncio". Nunca se pronuncia, remata a influência da moderação e cooperação, com alguns intervalos numa qualquer pastelaria da Avenida de Roma. É um exímio mestre dos tabus. Cavaco é também o tal presidente, que num acto sublime de respeito pelas autonomias insulares, recebeu em audiência, deputados madeirenses do nosso principal órgão de autonomia regional, numa sala de hotel. Outro momento forte do seu mandato e da sua visão da autonomia regional, foi a ridícula comunicação ao país em "prime time" sobre o renovado articulado do Estatuto Político Administrativo dos Açores apresentado pela tão contida autonomia açoriana de tempero socialista, em contraste com a exuberante e reivindicativa autonomia madeirense. Mas já se sabe que na enobrecida política de quintal, não há ressentimentos que não gerem em novas oportunidades e simbioses, à custa de "sapos" e vértebras vergadas pela causa pública, muito comum na dialéctica da profissão mais mal-amada da nossa praça. Em 2005 era nas suas palavras, um "imperativo de consciência" que o catapultava para Belém, no sentido da melhoria do clima de confiança, (com a situação já então muito difícil do país), que ele prometia alavancar; bem como a política de cooperação que pretendia imprimir. Agora em 2010, deveria ser um "problema de consciência" que o deveria fazer demover do propósito de se recandidatar. O país está agora numa situação muito mais aflitiva (também com a ajuda do rombo advindo do caso BPN, onde são referenciados alguns ex-colaboradores e conselheiros do seu antigo "staff" governamental); a cooperação institucional degradou-se e os níveis de confiança são residuais. Ou seja, em tudo aquilo que ele se propôs melhorar há cinco anos, falhou redondamente. Para quem na altura, afirmava que a sua experiência enquanto chefe de governo durante uma década, assim como a sua qualificação técnica, eram vantagens e ajudas, está bem patente o logro desses argumentos. Portugal bem que dispensava, mais cinco anos de retórica e silêncios ensaiados.