Os portugueses compreendem a austeridade. Estão habituados a ela na gestão diária do orçamento familiar. Há muitos que gastam mais do que podem, endividam-se aqui e ali para terem um carro melhor, para terem um televisor topo de gama, que não conseguem pagar e depois sofrem as consequências desses actos de má gestão. São obrigados a cortar nas férias, nos jantares fora e no mais supérfluo. Quando as coisas correm mesmo mal, batem-lhes à porta os recuperadores de crédito, podem perder os seus bens e ficar em dificuldade de conseguir novos financiamentos, já que a banca nem precisa de nenhuma agência de rating para perceber a incapacidade de os sobreendividados pagarem as suas dívidas. Apesar das diferenças monstruosas de montantes, no essencial é o mesmo.As pessoas percebem. Sabem que se não forem bom governo do seu orçamento têm de pagar, mais tarde ou mais cedo. Que não se pode gastar mais do que se têm por tempo indefinido e que há alturas em que têm de fazer opções. Os cidadãos compreendem os cortes. Também o fazem vezes sem conta no seu quotidiano. Não compreendem, contudo, que se golpeie no essencial, como na saúde. Nenhum pai entende porque é que tem de esperar um ano e meio por uma autorização para ter acesso a um medicamento novo que custa milhares de euros, mas que pode ser a tábua de salvação do filho com uma doença crónica. Ninguém compreende que uma criança esteja às portas da morte com uma hemorragia, que não se consegue estancar porque não há meios no hospital para lidar com uma patologia rara. Nem que faltem fármacos para as doenças oncológicas. As pessoas percebem a frieza dos números, que dizem que mais de metade dos hospitais têm despesa a mais. Mas os números não são tudo. Era como se uma família fosse analisar as suas contas, percebesse que gasta muito na farmácia em produtos essenciais para um dos membros e resolvesse acabar com essa despesa para equilibrar as contas. O Estado – cá e lá - continua a alimentar vícios: Vai jantar fora, que é como quem diz alimenta gordos institutos públicos, sociedades de desenvolvimento sanguesugas e empresas públicas anafadas. E, enquanto isso, o povo continua de férias hipotecadas. E isto ninguém entende. Por mais justificações que se apresente.