Entre as virtudes e os defeitos do mandatário venezuelano, há que distinguir a sinceridade que envolve os seus actos e a ambição que o afasta das soluções mais tolerantes. Hugo Chávez, o imprevisível presidente venezuelano, esteve esta semana em Portugal. Desembarcou do seu Airbus executivo directamente para tomar a direcção de um automóvel no qual percorreu o trajecto do Aeroporto da cidade do Porto até aos Estaleiros de Viana do Castelo. Acompanhado de José Sócrates e de outros ministros venezuelanos e portugueses percorreu as instalações, viu um ‘ferry’ recusado pelo governo dos Açores, por não cumprir os requisitos formulados no contrato. Achou-o bonito e parece que o negócio está feito. Entretanto, assinou contrato para mais dois navios que serão construídos em Portugal. Falou de novos contratos com empresas portuguesas para fornecimento de muitas centenas de computadores e de habitações pré-fabricadas (parece ser o mesmo que já fora anunciado muitos meses antes). Deu entrevistas e conversou em ‘on’ com os jornalistas e com todos quantos dele se abeiraram com a simplicidade e a autenticidade que lhe reconhecemos. Sempre com um ‘masbaha’ (rosário islâmico) nas mãos, talvez oferta de algum dos presidentes com quem se encontrara nos dias anteriores, no périplo que o levara a terras do outro lado do mundo. Falta-nos saber se o comandante venezuelano também diz trinta vezes ‘Allah Akbar’ (Deus é o Maior) antes de se deitar. Mas isso pouco nos interessa, porque nisto de religiões, respeito-as todas por igual, e cada um é livre de acreditar naquilo que melhor lhe convém ou de seguir a fé que melhor o guiar. Chávez mantém-se igual a si próprio. Polémico, com muitos amigos entre o seu Povo e alguns inimigos que não conseguem entender a autenticidade que brota das suas palavras e dos seus actos. Mas tem uma ambição desmedida e lança-se em périplos pelo fim do mundo, com novos amigos nos continentes distantes, de culturas que nada dizem aos latino-americanos. Há cerca de dez anos, no rescaldo da tragédia de Vargas, em Caracas, ouvi Chávez comovido, rendido à sua verdadeira dimensão de ser humano, dedicar parte de um discurso ao então presidente francês, Jacques Chirac, um homem que nada tinha de esquerda. Chávez que antes dissera que a Natureza não seria mais forte do que o Povo Venezuelano enganara-se e tinha vivido na carne a inapelável violência dessa força maior. Mostrava o seu reconhecimento pelo facto da França ter mandado para a Venezuela um avião militar Hércules C130 com pessoal especializado em buscas e primeiros socorros. Dizia então o mandatário venezuelano, com os olhos em lágrimas, mais ou menos isto: “Obrigado Presidente Chirac, obrigado, eu a seu lado sou um soldado a aprender a ser presidente!”. O mesmo elogio fez a seguir ao então presidente argentino, Fernando de La Rua, que embora socialista não embarcava nas teorias revolucionárias e esquerdistas que a ambição de Chávez manifestava então. Guardo de Chávez, desde então, uma opinião positiva, o reconhecimento de que é com a solidariedade de todos que temos de viver. Sei que não tem sido essa a prática dos onze anos de governo do comandante golpista, mas a verdade é que na Venezuela outros não fariam melhor. Na semana passada em conversa com amigos que estão naquele país, onde os governos que se sucederam nos últimos 50 anos não deram atenção às necessidades básicas do seu povo, fiquei a saber que o poder de compra melhorou, que a classe média cresceu e que as cadeias de supermercados, muito bem entregues nas mãos de madeirenses empreendedores, continuam a abrir lojas, mesmo com a concorrência de uma nova cadeia estatal que tem todos os defeitos de um negócio criado pelo governo. As clínicas médicas estão cheias, porque a classe média cresceu e agora também se socorre desses cuidados. E, soubemos, há poucos dias que milhões de pensionistas já estão a receber as suas pensões, incluindo alguns milhares de madeirenses. Chávez disse em Viana do Castelo que veio a Portugal “para ajudar com as duas mãos” o seu amigo Sócrates. Não foi, certamente, uma referência amigável ao homem que os socialistas puseram a governar o nosso País. Foi uma mensagem sincera ao Povo Português, a quem o mandatário venezuelano, por mais de uma vez, já confessou o seu reconhecimento, face à riqueza que muitos milhares de conterrâneos nossos criaram nas terras conquistadas por Bolívar. Chavéz mostrou a mesma sinceridade dos governantes de países menos evoluídos que não foram formados nas escolas da política, nem frequentaram universidades estrangeiras, mas que acreditam nesse populismo, que acreditam que irão conseguir mudar, que acreditam na alternativa dos seus projectos, se bem que por vezes com ambição desmedida. O pecado de Chavéz é pensar que os empresários e os ricos são mal intencionados. Mas, como pensar o contrário, se o país chegou ao estado em que o encontrou?! Pior que ter Chavéz em presidente é ter alguém que não entenda que primeiro que tudo há que dar instrução, casa e comer a quem precisa e que não consiga esse diálogo básico com as populações mais desfavorecidas. De resto o sistema de mercado fará certamente o trabalho que alguns queriam ver nestes primeiros dez anos. O voto que deixo é que não se eternize no poder. Cria vícios e dificulta as soluções… O futuro deste regime está nas oportunidades que criar, na boa aplicação dos dinheiros do petróleo e no combate à violência urbana. Neste último ponto o governo de Chavéz falhou, e a Venezuela aguarda uma nova geração de cidadãos capazes e com projectos válidos. Com esperança e ansiedade!

Entre as virtudes e os defeitos do mandatário venezuelano, há que distinguir a sinceridade que envolve os seus actos e a ambição que o afasta das soluções mais tolerantes.

Hugo Chávez, o imprevisível presidente venezuelano, esteve esta semana em Portugal. Desembarcou do seu Airbus executivo directamente para tomar a direcção de um automóvel no qual percorreu o trajecto do Aeroporto da cidade do Porto até aos Estaleiros de Viana do Castelo. Acompanhado de José Sócrates e de outros ministros venezuelanos e portugueses percorreu as instalações, viu um ‘ferry’ recusado pelo governo dos Açores, por não cumprir os requisitos formulados no contrato. Achou-o bonito e parece que o negócio está feito. Entretanto, assinou contrato para mais dois navios que serão construídos em Portugal. Falou de novos contratos com empresas portuguesas para fornecimento de muitas centenas de computadores e de habitações pré-fabricadas (parece ser o mesmo que já fora anunciado muitos meses antes). Deu entrevistas e conversou em ‘on’ com os jornalistas e com todos quantos dele se abeiraram com a simplicidade e a autenticidade que lhe reconhecemos. Sempre com um ‘masbaha’ (rosário islâmico) nas mãos, talvez oferta de algum dos presidentes com quem se encontrara nos dias anteriores, no périplo que o levara a terras do outro lado do mundo. Falta-nos saber se o comandante venezuelano também diz trinta vezes ‘Allah Akbar’ (Deus é o Maior) antes de se deitar. Mas isso pouco nos interessa, porque nisto de religiões, respeito-as todas por igual, e cada um é livre de acreditar naquilo que melhor lhe convém ou de seguir a fé que melhor o guiar. Chávez mantém-se igual a si próprio. Polémico, com muitos amigos entre o seu Povo e alguns inimigos que não conseguem entender a autenticidade que brota das suas palavras e dos seus actos. Mas tem uma ambição desmedida e lança-se em périplos pelo fim do mundo, com novos amigos nos continentes distantes, de culturas que nada dizem aos latino-americanos. Há cerca de dez anos, no rescaldo da tragédia de Vargas, em Caracas, ouvi Chávez comovido, rendido à sua verdadeira dimensão de ser humano, dedicar parte de um discurso ao então presidente francês, Jacques Chirac, um homem que nada tinha de esquerda. Chávez que antes dissera que a Natureza não seria mais forte do que o Povo Venezuelano enganara-se e tinha vivido na carne a inapelável violência dessa força maior. Mostrava o seu reconhecimento pelo facto da França ter mandado para a Venezuela um avião militar Hércules C130 com pessoal especializado em buscas e primeiros socorros. Dizia então o mandatário venezuelano, com os olhos em lágrimas, mais ou menos isto: “Obrigado Presidente Chirac, obrigado, eu a seu lado sou um soldado a aprender a ser presidente!”. O mesmo elogio fez a seguir ao então presidente argentino, Fernando de La Rua, que embora socialista não embarcava nas teorias revolucionárias e esquerdistas que a ambição de Chávez manifestava então. Guardo de Chávez, desde então, uma opinião positiva, o reconhecimento de que é com a solidariedade de todos que temos de viver. Sei que não tem sido essa a prática dos onze anos de governo do comandante golpista, mas a verdade é que na Venezuela outros não fariam melhor. Na semana passada em conversa com amigos que estão naquele país, onde os governos que se sucederam nos últimos 50 anos não deram atenção às necessidades básicas do seu povo, fiquei a saber que o poder de compra melhorou, que a classe média cresceu e que as cadeias de supermercados, muito bem entregues nas mãos de madeirenses empreendedores, continuam a abrir lojas, mesmo com a concorrência de uma nova cadeia estatal que tem todos os defeitos de um negócio criado pelo governo. As clínicas médicas estão cheias, porque a classe média cresceu e agora também se socorre desses cuidados. E, soubemos, há poucos dias que milhões de pensionistas já estão a receber as suas pensões, incluindo alguns milhares de madeirenses. Chávez disse em Viana do Castelo que veio a Portugal “para ajudar com as duas mãos” o seu amigo Sócrates. Não foi, certamente, uma referência amigável ao homem que os socialistas puseram a governar o nosso País. Foi uma mensagem sincera ao Povo Português, a quem o mandatário venezuelano, por mais de uma vez, já confessou o seu reconhecimento, face à riqueza que muitos milhares de conterrâneos nossos criaram nas terras conquistadas por Bolívar. Chavéz mostrou a mesma sinceridade dos governantes de países menos evoluídos que não foram formados nas escolas da política, nem frequentaram universidades estrangeiras, mas que acreditam nesse populismo, que acreditam que irão conseguir mudar, que acreditam na alternativa dos seus projectos, se bem que por vezes com ambição desmedida. O pecado de Chavéz é pensar que os empresários e os ricos são mal intencionados. Mas, como pensar o contrário, se o país chegou ao estado em que o encontrou?! Pior que ter Chavéz em presidente é ter alguém que não entenda que primeiro que tudo há que dar instrução, casa e comer a quem precisa e que não consiga esse diálogo básico com as populações mais desfavorecidas. De resto o sistema de mercado fará certamente o trabalho que alguns queriam ver nestes primeiros dez anos. O voto que deixo é que não se eternize no poder. Cria vícios e dificulta as soluções… O futuro deste regime está nas oportunidades que criar, na boa aplicação dos dinheiros do petróleo e no combate à violência urbana. Neste último ponto o governo de Chavéz falhou, e a Venezuela aguarda uma nova geração de cidadãos capazes e com projectos válidos. Com esperança e ansiedade!