Cavaco Silva prometeu uma campanha poupadinha. Também vai pelo mesmo caminho?A primeira campanha a falar de contenção foi a minha. Já estou habituado a isso. Em 2006, a minha campanha gastou 849 mil euros e a do agora candidato Cavaco Silva gastou três milhões e 194 mil. Ele propõe gastar metade do que está autorizado, ou seja dois milhões e 200 mil. Eu vou gastar 25% menos.

Vai na mesma linha? Não é na mesma linha. Vou gastar menos. Além de que ele tem um outdoor permanente que é o facto de ser Presidente. Não vou atrás do populismo e demagogia fácil. A democracia tem o seus custos. A democracia é para ser levada a sério, uma eleição presidencial também e terá de haver outdoors, mas da minha parte com contenção. Eu não vou segui-lo na tentativa de não haver campanha. Isso é antidemocrático.

Acredita que consegue ir a uma segunda volta? Em 2006, apenas com uma rede de cidadãos a apoiar, fiquei a menos de 30 mil votos. Não há novidade no discurso. Fez o discurso de há cinco anos muito contente consigo próprio. Não se vê resultados dessa sua capacidade de estudar dossiers, da boa relação que tem com as Forças Armadas. As Forças Armadas são constitucionais, sempre se deram bem com todos os Presidentes da República. Comigo também se darão bem no caso de eu ser eleito. E ele, que é economista, não fez muito para evitar a mais grave crise económica que o país atravessa. Tem mais ou menos os mesmos apoiantes, é o candidato do PSD e o candidato do CDS, as mesmas figuras. Eu, além de ter aquela rede de cidadania, desta vez tenho o apoio do meu partido - que é o PS -, do BE e de muitos cidadãos independentes. É a diferença principal, desta vez tenho mais apoios.

A disputar o mesmo eleitorado tem também outras candidaturas. Tem o presidente da AMI e o candidato do PCP. Não creio que seja o mesmo eleitorado. Da outra vez havia quatro candidatos. O PCP apresenta sempre um candidato próprio, que é bom que o faça. O PCP mobiliza o próprio PCP. Até é normal que vá às urnas na primeira volta.

Está a minimizar a candidatura de Fernando Nobre? Não sei o que é a candidatura do Fernando Nobre. Já foi monárquico, já foi do bloco de esquerda. Pensei que era uma pessoa cordial, muito humanista, mas a única coisa que eu vejo é uma extraordinária agressividade em relação à minha candidatura. Em relação a mim mesmo como pessoa, que é um mau sinal.

E aqui na Madeira? O que é que espera? Fiquei muito entusiasmado com a recepção muito calorosa, com muita gente quer na inauguração da sede, quer depois no jantar. Da outra vez fiquei em segundo lugar, à frente do candidato do PS que era o Dr. Mário Soares. Até estava lá gente do PSD e do CDS.

Se for eleito, como vai ser a sua relação com a Madeira? Não tenho preconceitos em relação a autonomia. A autonomia é uma das principais transformações e uma das grandes conquistas da democracia, mas tem que rimar com democracia. O que eu digo é que não terei complacências com qualquer distorção do funcionamento da democracia em qualquer parte do território, seja no continente ou em qualquer uma das regiões autónomas. E também não terei complacência na viciação do debate democrático em qualquer parlamento - seja na Assembleia da Republica, seja num parlamento regional - no que respeita aos direitos da oposição, de fiscalização, das perguntas que têm que ser respondidas pelo Governo. Se vier à Madeira como presidente eleito, como espero, a primeira coisa que faço é ir direito ao parlamento e será na assembleia legislativa que receberei os partidos políticos.

Como é irá intervir na Assembleia Legislativa da Madeira? O Presidente da República é o garante do regular funcionamento das instituições democráticas. Isso refere-se não apenas ao continente e à República, mas também aos órgãos de governo próprio. Antes de chegar aos extremos, há um diálogo que se pode ter, mensagens que se pode enviar, a alocuções que o Presidente da República pode fazer directamente ao País. O que não pode acontecer é vir à Madeira, dizer que não vai Assembleia e o Presidente aceitar como já aconteceu.

Não aceitaria uma mesa monocolor como até há pouco tempo acontecia na Madeira? Quem me conhece sabe que quando digo estas coisas é mesmo para fazer. Não serei complacente, nunca fui e não serei em relação a ninguém, mesmo até em relação ao meu próprio partido. Votei contra a lei da segurança interna no Bloco Central, tive uma questão com o Mário Soares e Salgado Zenha. Portanto, a minha vida responde por mim.

Se o Governo Regional persistir nessa ideia de não responder na Assembleia. O que pode fazer, o que faria? O Presidente da República pode sempre dissolver os órgãos de governo próprio, mas pode tomar medidas prévias como mensagens à Assembleia, mensagens directas ao povo, com conversas directas com o presidente do Governo, que é membro do conselho de estado. Estou a falar num plano institucional. E isto pode passar no continente, nos Açores ou na Madeira. Estou a falar no plano institucional e no cumprimento daqueles que são os deveres do Presidente da República.

Acompanha a situação política aqui na Região. Há défice democrático? Não vou repetir chavões que foram ditos por outros. Serei exigente e digo que a democracia não se esgota no acto eleitoral. A democracia não é só votar. Ninguém põe em causa a legitimidade das eleições que aqui têm sido feitas, mas a democracia não acaba aqui. A democracia é uma vivência quotidiana nas instituições e fora das instituições. Na comunicação social, na convivência entre as pessoas, no respeito pelo pluralismo, no respeito pela diferença de opinião.

Não corre o risco de se deslumbrar depois? Este regime já foi muito elogiado por figuras gradas do PS como Almeida Santos e Jaime Gama. Não sou pessoa de me deslumbrar. Tenho a idade que tenho, já vivi muito e não sou pessoa de grandes deslumbramentos.

Como vê esses elogios feitos por pessoas de esquerda? Isso não tem a ver com esquerda ou direita. Tem a ver com a fidelidade à democracia. Há pessoas de direita que são fiéis à democracia, há pessoas de esquerda que nem sempre o foram. Isso tem a ver com o respeito pelas regras democráticas. Alguns desses elogios surpreenderam-me muito. Eu estava na Assembleia da República quando ouvi umas dessas pessoas referir-se ao presidente do Governo Regional em termos um bocado complicados. Como Presidente da República e em termos institucionais, defenderei a Madeira e terei uma relação de solidariedade e compreensão em relação à Madeira. Também exigirei que os órgãos institucionais da Madeira funcionem dentro das regras do estado de direito democrático.

Não teme que o apoio do PS o prejudique? É o meu partido. Se não me apoiasse também me prejudicava. Tomei a iniciativa de me disponibilizar sem consultar ninguém, formalizei a candidatura muito antes de ter qualquer apoio de qualquer partido político. Toda a minha vida fui um homem livre, um homem independente, tive desaguisados com o meu partido, sempre votei em consciência aquilo que devia votar. Claro que me alegra ter o apoio do PS, mas eu tenho o meu discurso autónomo que algumas vezes pode desagradar as forças políticas que me apoiam.

Prepara-se agora uma greve geral. Outros candidatos já apoiaram a greve claramente. Estou nisto para ganhar as eleições, sou candidato à presidência da República. Eu pedi um encontro com a CGTP e com a UGT e vou ter esse encontro na próxima semana. O que eu digo é que os políticos devem compreender a greve, é um facto sindical novo, pois há muito que as duas centrais sindicais não se uniam para fazer uma greve. É importante que os dirigentes políticos tenham isso em conta. O meu coração e o meu pensamento obviamente estão do lado daqueles que representam milhões de trabalhadores. Não posso, enquanto candidato à Presidência da República, a apelar à greve. Não sou um demagogo, não vou desfilar na rua, mas eles sabem de que lado estou.

Não subscreve os elogios à Madeira, mas não vê nada de bom no que foi feito? Houve aqui um processo de grande desenvolvimento, o problema não está em negar tudo. Houve aqui um modelo de desenvolvimento que trouxe um progresso indiscutível, de bem-estar e facilidade ao povo da Madeira. Talvez seja altura de repensar este modelo de desenvolvimento, talvez seja altura de repensar o futuro, é de apostar noutro paradigma, mas não vou negar o desenvolvimento.

Um paradigma mais virado para as pessoas?Para as pessoas, uma aposta em centros de excelência, de pesquisa e de investigação, virado para o mar, agora que se fala tanto nisso. Mais para o combate às desigualdades, já que o estudo de Bruto da Costa de 2008 indica que 50% das pessoas vivem em risco de pobreza. A questão das desigualdades é, na verdade, um problema português, tal como é um problema a aposta na qualificação.

E será uma das bandeiras da sua campanha? Chamar a atenção para as desigualdades com certeza, mas o Presidente não governa e ai está o erro de Cavaco Silva na interpretação que fez dos poderes presidenciais. O Presidente da República tem uma palavra a dizer, é preciso que seja visto, que fale e que a palavra do Presidente seja inspiradora. Pode chamar a atenção e, com aquilo que diz, influenciar a acção governativa.