Carlos Jorge Pereira Na passada semana, dirigi-me aos Correios, para levantar uma encomenda. retirei a senha para atendimento e à minha frente estariam à minha umas cinquenta pessoas, o que me deu tempo suficiente para ouvir uma história comovente de duas senhoras de generosa idade, reformadas, que trocavam uma conversa em "amena cavaqueira". Eu, sem querer, como outras pessoas, que as circundavam ouviram todo o seu diálogo, como se estas mesmas senhoras quisessem fazer um desbafo público. Deste modo, uma dizia para a outra que a sua reforma é cada vez mais insuficiente para cobrir todas as despesas mensais e que, muitas vezes só conseguia comer uma refeição completa, por dia. A outra, solidarizando-se com a primeira, dizia que a continha da farmácia é tão grande que a paga em três ou quatro prestações e que esperava pelo subsídio de Natal, para arrematar o pagamento do remanescente. Uma outra pessoa que estava a ouvir a conversa destas humildes, mas nobres senhoras, pediu a palavra, pedindo desculpa por interromper esta conversa muito efusiva, e disse: "então minhas senhoras, não sabeis que há idosos que vão à farmácia perguntar o preço dos medicamentos? as senhoras, muito estupefactas, responderam que desconheciam esta situação. E a outra senhora continuava: "pois, o mais grave é que uma parte significativa destas pessoas idosas volta para trás, sem comprar o respectivo medicamento, questionando-se , sobre a qualidade de vida desta pessoas que trabalharam, uma vida inteira, e que agora mereciam toda a dignidade do mundo. As senhoras que abordavam esta questão cada vez mais premente, partilhavam a mesma cadeira, uma sentada de um lado, e a outra do outro, até que aquela que tinha o número mais próximo se levantou, para junto do balcão e eu, sem querer ouvi a senhora funcionária do atendimento contar os tão austeros 340 euros e alguns cêntimos. A velhinha contou duas vezes este triste e insólito montante, que tinha que render durante trinta dias, dando, assim, um rácio módico de cerca de dez euros por dia, em média. Finalmente, perguntei-me, com tantos impostos, com tanta austeridade, poderá alguém viver no "Limiar da pobreza extrema"? Aquele dia ficou, para sempre gravado na minha memória, e, fiz questão em partilhar com todos os leitores, este triste fado das nossas compatriotas, enquanto muitos continuam a viver à "grande e à francesa" e a falar, com muita demagogia sobre a situação sócio-económica dos nossos compatriotas, que mereciam todo o nosso carinho, respeito e solidariedade muito mais abrangente por parte de um Estado que se auto-intitula de Estado Social. Haja Bom-senso, caros Governantes.