Já vai longe o tempo em que quando criança ouvia quase que religiosamente as rádio-novelas que a antiga Emissora Nacional passava. As obras de Tolstoi adaptadas, casos de Ana Karenina e Guerra e Paz e particularmente a obra de Júlio Verne, Miguel Strogoff, em que o aventureiro e intrépido correio do Czar russo presenteava todos os ouvintes com episódios cheios de trepidante acção magnificamente sonorizados deixavam-me sempre expectante para a frase... "no próximo capítulo". O Rádio Totobola na saudosa Rádio Madeira ou Emissora do Cambado (até hoje nunca soube o porquê deste nome nem procurei saber pois a "magia" deve ser mantida num encanto misterioso), enfim... tudo isto me traz até aos dias de hoje como profissional de comunicação social com responsabilidades acrescidas de chefia do serviço Antena 3, parte integrante do grupo RTP, Rádio e Televisão de Portugal. Hoje a rádio é versátil, tecnológica, adaptável e, ocasionalmente, imprevisível, mas onde essa imprevisibilidade é apenas por parte de quem a ouve. As playlist estratificadas disciplinam ouvidos à procura de um produto fácil e que não obrigue a grandes análises, até porque o tempo é escasso e quase sempre dividido com outras tarefas. Tornou-se produto doce, de rápido consumo e descartável, à imagem... sei lá… de um gelado, que é bom enquanto dura… até ao próximo de outro sabor qualquer. De qualquer forma aceitei este desafio de escrevinhar algumas palavras durante os próximos meses na tentativa de expressar ideias e imagens de uma forma racional e perceptível para quem as lê.
Carlos Pestana, Chefe do Serviço Antena 3 Madeira