
As previsões meteorológicas são, tal como o próprio nome indica, falíveis. Mas isso não significa que tenham de estar sempre a errar. Sabe-se que, no caso do arquipélago da Madeira, o microclima potencia as margens de erro e, como tal, os modelos (das cartas de previsão numéricas) têm de ter uma resolução boa o suficiente para, com recurso às imagens de satélite, aos cálculos de variação e de influência dos agentes climáticos, prever o tempo numa escala local diferenciada, tendo em conta as bacias hidrográficas e os riscos mais iminentes numa ilha com grandes declives: as cheias e as derrocadas. Porém, a especificidade regional não pode servir de pretexto para a colecção de erros que o Observatório de Meteorologia arrecada na previsão do tempo para a Madeira.
Ora, se o Instituto de Meteorologia considera apenas os tais modelos europeus credíveis, refutando seguir o exemplo dos Açores (tem em conta também os modelos americanos), recusando sequer espreitar as cartas de alta resolução monitorizadas por cientistas e investigadores e que podem ser acedidas nos portais online de pólos universitários como o Centro de Geofísica da Universidade de Lisboa - que têm obtido resultados mais próximos da realidade e com uma antevisão significativa em relação ao acontecimento - então assume sozinho a inteira responsabilidade pelo falhanço nas previsões. Das duas uma: ou os instrumentos e satélites do Centro Europeu estão pouco virados para esta parte da ‘testa’ de África ou então o Observatório de Meteorologia do Funchal entrou em alerta amarelo até à chegada do prometido radar meteorológico.
É que não está em causa a previsão de sol para ir à praia, mas capacidade de antecipar informações com rigor científico sobre intempéries, a tempo de salvar vidas. O soar do alerta vermelho na manhã de 20 de Fevereiro, quando ‘Roma há muito ardia’, não parece ter sido um precalço, antes uma limitação que se evidencia. O episódio de 21 de Outubro voltou a pôr a nu as mesmas vulnerabilidades do sistema de previsão do tempo, anunciando a forte precipitação a escassas 4 horas do acontecimento. O aviso amarelo foi accionado fora de horas (às 10 da noite), passando a laranja pelas 9 da manhã. Muitos foram apanhados desprevenidos e, quando meia cidade estava mergulhada em água e entrava num pânico contagiante, a outra metade tentava perceber o que se passava, entre as abertas na rede de telecomunicações, bloqueada devido à superlotação de chamadas.
E quem procurou informações no renovado site da Protecção Civil, deparou-se com um ambiente impávido e sereno, onde surgia em destaque, uma conferência em Lisboa, nos dias 19 e 20, subordinado ao tema, imagine-se, “prevenção, segurança e gestão de emergências”. Nem uma palavra de tranquilidade aos madeirenses, embora todos sentissem que, mais uma hora a chover daquela forma e teríamos mais uma marca cravada no extenso historial de aluviões. Terá a Protecção Civil sido traída pela informação meteorológica tardia ou menosprezou-a? Um dos grandes males das instituições ao serviço das populações é que são mais políticas do que técnicas, operacionais ou interventivas. Infelizmente, muitas estão mais preocupadas na promoção do que fizeram do que na divulgação do que é preciso fazer.