Está na ordem do dia falar da crise, das suas origens, dos potenciais responsáveis e das possíveis soluções. Todos sabemos que a crise faz parte da evolução natural das sociedades. Como dizia Kennedy crise é escrita em Chinês por dois caracteres: "perigo" e "oportunidade". Eu sou dos que vê na crise uma oportunidade, o perigo é apenas o alerta que precisamos para compreender que temos que mudar. Mas a mudança é inevitável e a grande questão é se queremos fazer parte dos que aproveitam a oportunidade para liderar a mudança, ou se, pelo contrário, somos os que da crise apenas vão retirar o pânico e a angustia do perigo. O primeiro passo é compreender e relativizar tudo o que está a acontecer. Um amigo recomendou-me um vídeo animado do Prof. David Harvey, professor em Nova Iorque e um dos mais influentes pensadores mundiais. Apesar de ser geógrafo é mais conhecido pelo estudo das teorias sociais. A animação acompanha uma palestra de Harvey sobre a crise do capitalismo que recomendo vivamente (http:/www.youtube.com/watch?v=qOP2V_np2c0). Harvey começa por resumir as principais explicações para a crise, num cardápio que é muitas vezes utilizado por comentadores e políticos. A primeira explicação é a natureza humana, a ganância originou crise. A segunda explicação é o falhanço das instituições, dos reguladores e dos sistemas de controlo. A terceira é a obsessão dos decisores por uma determinada teoria, neste caso da economia de mercado. Por último que a causa da crise é cultural, está relacionada com a promoção do mercado imobiliário nos EUA, ou com o carácter dos gregos ou agora dos portugueses. É claro que ninguém sabe ao certo a explicação para um fenómeno tão complexo mas todos nós já encontramos algumas destas explicações nas leituras, debates e especulações sobre o tema. Mas o mais admirável na palestra de Harvey é a forma como ele consegue ligar tudo isto à teoria do capital e a sua evolução nos últimos 30 anos. A crise dos anos 70 foi causada pelo excesso de peso do mercado de trabalho sobre o capital. Foi resolvida através das políticas neo-liberais (para os que se lembram de Tatcher e Reagan) que vieram reequilibrar o mercado e iniciar um processo de "outsourcing" global da força de trabalho. A consequência foi o excesso de poder do capital que cresceu à custa de um acesso global à força de trabalho, em particular nos países que entretanto cresceram como a Índia e a China. É o "mundo plano" que provocou a estagnação dos salários e a consequente redução do consumo que o mercado resolveu imediatamente através do sistema financeiro com o crédito fácil. O simples e brilhante argumento de Harvey é que a crise que vivemos é o resultado da inovação financeira que levou a um crescimento descontrolado deste sector comparativamente ao industrial. Este crescimento não era sustentável, motivou a ganância de muitos, colocou em causa as instituições menos consolidadas, os líderes mais deslumbrados e os países e regiões que julgaram ter encontrado na especulação financeira a solução para os seus problemas estruturais. É natural que os que sentem mais o perigo sejam os que julgavam que esta forma de vida era sustentável. Que podiam viver a comprar electrodomésticos e férias a crédito, ter negócios especulativos sem estrutura com elevados lucros, ter reformas sem que alguém possa descontar, fazer obras a pagar pelas gerações futuras... Esta crise se for bem entendida será uma oportunidade para mudarmos de vida, será uma oportunidade para os nossos filhos poderem viver num pais melhor. A nossa responsabilidade é estarmos à altura da crise e sabermos fazer o que tem que ser feito. Vejam o vídeo do Harvey, vale mesmo a pena.

Nuno Nunes, Professor Universitário e Presidente do Madeira-ITI, Carnegie Mellon Portugal