Shakespeare apelidou-a de alimento do amor, e ao longo da sua história tem sido alvo de grande evolução tanto na maneira como é produzida, como na maneira como é tocada. Mas se há algo que não muda é a maneira como nós ouvimos a música, o que nos faz gostar de ouvir música? Serão os acordes? Serão as vozes? Bem, o que está provado cientificamente é que o que nos faz querer dançar é a interacção das linhas de baixo com a bateria, em especial o 'kickdrum' (o bombo de bateria). Ainda no outro dia estava à conversa com um amigo e estávamos a discutir sobre o papel do Dj na música nos últimos 30 anos, mais do que qualquer outro meio, foram os Dj's que levaram a música ao público em geral. O saudoso Larry Levan, lendário Dj do Paradise Garage, noite após noite, contagiava os seus fiéis seguidores com discos escolhidos a dedo, no dia seguinte estes mesmos seguidores faziam fila nas principais lojas de música de Nova Iorque à procura do som do 'Garage'. O nosso Dj Vibe e o Rui da Silva também conhecidos como Underground Sound of Lisbon devem o sucesso do 'So Get Up' ao Dj Júnior Vasquez que em 1994 em plena Sound Factory ,em Nova Iorque, teimava em não dizer a ninguém de quem era o disco épico que levava a pista de dança ao rubro com 2 acordes e uma voz que ecoava a frase “so get up , forget the past”. Ainda mais recentemente tivemos a aclamada rainha da pop, Madonna, a contratar um Dj e produtor (Stuart Price) para produzir o álbum 'Confessions on a Dancefloor', álbum esse que continha canções que venderam milhões de copias em todo o mundo. Pelos exemplos que dei é fácil chegar a conclusão que os dj’s desempenharam um papel fundamental na criação de novas interpretações, na divulgação de novos artistas mas acima de tudo cimentou o seu papel como 'tastemaker' ou se preferirmos o que dita as novas tendências, não o que as segue. Sempre houve oposição à música, especialmente se é nova e diferente, foi assim com o jazz e o rnb , foi assim com o rock e o punk, foi assim com o disco e continua a ser assim com a música electrónica. Tal como as roupas que usamos, a musica que ouvimos é uma boa maneira de descrever quem somos. O advento da Internet trouxe ao consumidor em geral, em alguns segundos, os discos que outrora levariam meses a chegar até nós. Quando falo com alguns colegas sobre os “trunfos” (aqueles discos que sabíamos mais ninguém teria) todos olham para mim com um ar um tanto ou quanto desiludido , “já não existem mais” , é certo que é muito mais difícil, especialmente devido ás várias fontes de informação que estão disponíveis em vários sites, mas hoje em dia ser-se diferente na música que se passa é possível, mas cada vez mais raro. Isto leva-me a um outro ponto que gostava de abordar neste artigo, se antigamente um Disc-Jockey aliando a sua personalidade com a sua bela mala de discos de vinyl era capaz de levar uma audiência ao rubro (lei-se êxtase musical, não necessariamente braços no ar), hoje em dia as coisas são um pouco diferentes. Já não existem batidas para acertar, o computador trata disso, e já que estamos a falar em computadores os mais recentes sofwares profissionais dedicados ao “djing” disponibilizam uma data de efeitos em cada canal, a possibilidade de editar as musicas em tempo real e claro a opção de controlar todo este aparato através de leitores de cd ou através de gira-discos. Por esta ordem de ideias, é fácil chegar à conclusão que hoje em dia é mais importante a maneira como se passa música do que a própria música em si, na minha opinião esta é uma ideia errada porque a música deve sempre ocupar um papel central . Ainda há poucos dias atrás um grande amigo disse-me que haviam os poetas e os realistas (referindo-se como é obvio aos djs). Os poetas idealizavam muito e os realistas eram... realistas. Eu vejo alguma verdade nesta frase adoptando à situação, mas não concordo inteiramente, eu defendo que toda à musica e ideiais que partilhamos foram fruto de experiências, de artistas com carácter que quiseram mostrar ao mundo coisas diferentes. Tendo tudo isto em conta é sempre relativo defender um determinado estilo de música, nem eu próprio o consigo fazer, pois desde muito novo aprendi a gostar de vários estilos de latitudes completamente diferentes (graças aos meus pais). Após ter vivido no epicentro mundial da indústria musical, com toda a azáfama de pessoas, as festas ,a própria informação disponível em jornais e revistas, a cultura, as lojas de discos, é um pouco complicado voltar a se acostumar com a realidade da Pérola do Atlântico. Londres é uma grande experiência, especialmente se formos completamente obcecados por música como é o meu caso. Novas bandas nas rádios e nos jornais, novos Dj’s na programação do Fabric e do Ministry of Sound, e todos eles trazem o seu cunho pessoal , as suas influências e experiências para cima de palco, para o estúdio ou até para a cabine. Fazem falta neste momento mais apostas em bons artistas na Região, com a chamada crise (é a desculpa para tudo) é mais difícil arriscar em sonoridades menos óbvias. Não existem mundos perfeitos mas é possível voltar a dar um pouco mais às pessoas . Longe de mim em querer comparar Londres com o Funchal, o que acredito é que é possível adoptar ideias, e conjunturas à nossa realidade. Gostaria de voltar a ver a pelo menos um bom festival de Verão na Madeira no próximo ano, é preciso coragem dos empresários e não só é preciso coragem do próprio público em geral em aderir a estes eventos ou então estaremos todos condenados a viajar para o continente a procura de emoções. À medida que escrevo este artigo, estou a ouvir os novos trabalhos de Tensnake , o alemão tem sido um dos artistas revelação do ano , num crossover de influências da house do nu-disco e do techno. Como diz o Emanuel Juanito, “boa audição”.
Michael C