No outro dia foi-me irresistível ir ao cinema mesmo sabendo que nenhum dos filmes em exibição no circuito comercial apelava a qualquer dos meus sentidos. Com a esperança perdida de que o livro de Liz Guilbert poderia ter resultado num "Comer, Orar, Amar" de qualidade e densidade dramática, optei pela reinvenção do holandês Harald Zwart de "Karate Kid". Não me arrependi: pelo registo adequado de um Jackie Chan maduro, de um pequeno Jaden Smith grande em talento, pela simplicidade de uma história assente em pérolas da sabedoria oriental. Afinal, os jovens ainda têm filmes de entretenimento com os quais se podem relacionar, aprendendo ao mesmo tempo uma lição aqui e ali, pensei eu. Foi como que uma "pipoca" optimista neste panorama deprimente que é o circuito comercial de exibição de filmes na Região. A indústria, como espelho reflector da sociedade, não fugiu, claro, ao facilitismo e imediatismo do lucro fácil que, literalmente aos pontapés, empurrou cada um de nós para longe da essência dos sentidos, atafulhando-os com excessos de quase tudo. O "fast food" cinematográfico com que insistem em alimentar quem gosta de sentir a magia de uma ida a uma sala de cinema só pode ter um fim se cada um de nós nutrir uma maior fidelidade por aquilo que nos dá qualidade de vida. Se usamos os cinco sentidos para conhecer o mundo que nos rodeia, sugiro, então, que os respeitemos e apuremos. Há sabores azedos e amargos, por isso não convém provar nada sem saber o que é; sons barulhentos e desagradáveis que 22-10-201022-10-2010alimentam o desequilíbrio; coisas ásperas e viscosas que aprofundam o medo do toque; tudo o que está estragado tem um cheiro horrível; ver mais longe diminui o risco de demasiadas lágrimas. Como em quase tudo nos dias que correm, se cada um de nós activar e apurar os sensores em si, vai deixar de consumir aquilo que a toda a força nos querem vender para benefício de muito poucos. Conhecer o que nos é dado a ver é fundamental para o critério da escolha. Alimentar nas salas de cinema que não são nossas a pobreza do que é exibido é contribuir para que nada mude. Sim, porque há cinema de qualidade e comercial a ser visto por esse país fora e, graças à inteligência de ainda muitos, a indústria continua a produzir filmes e não fitas.

Teresa Mizon, Apresentadora de TV