Estamos em crise. Todos os dias esta realidade é afirmada quase até à exaustão. Somos um país em crise, com solução sempre adiada. Mas não são apenas questões económicas e financeiras. Antes fossem! É a humanidade da nossa natureza que está verdadeiramente em crise. Trata-se de uma situação de contornos culturais, éticos e mesmo civilizacionais que não se resolve com intervenções pontuais e fragmentadas. Nestes tempos de grande complexidade, é, então, crucial encontrar referenciais de sentido, princípios que sirvam de alicerce para estruturar e construir a personalidade e tornem as pessoas (sobretudo os mais jovens) competentes. Onde pode isto acontecer? Qual o espaço priveligiado para este processo? Em vez de olharmos, desesperadamente, para todos os lados à procura de um"quase" milagre para sair desta recessão humana, porque não olhar para a família? Porque não refundar e revalorizar a sua importância e função como contributo inadiável para a saída desta crise? É verdade que importa, desde logo, dizer que aquilo a que nós, muitas vezes, chamamos família, realmente não existe. As famílias, como diz Eduardo Sá, não são "tão Presépio como todos gostaríamos que fossem". Aliás, o próprio Presépio era uma família muito original. Vem isto a propósito de encontrar a melhor maneira de traduzir aquilo que, sobretudo na urgência dos dias de hoje, é importante em relação à família. Que seja um espaço de encontro, de relação e de verdade. Que desenvolva nos seus membros as capacidades necessárias para uma caminhada feliz e realizada. Que favoreça o diálogo e a decisão e não o impasse e a ambiguidade. Que reforce a auto-estima sem medo do conflito, pois é natural que diversas pessoas tenham diferentes pontos de vista e que choquem sem receio de "partir" alguém. Quando dizemos não a uma pessoa a propósito de alguma coisa (embora, à primeira vista pareça que estamos só a dizer que não), estamos a dizer sim à relação que temos com essa pessoa e ao que sentimos. Estamos a afirmar que não desistimos daquela pessoa e daquela relação e valorizamos a capacidade de caminharmos em conjunto. É, por isso, decisivo olhar para a riqueza da Família. Trata-se de pôr legendas onde as pessoas têm intuições mais ou menos censuradas, reabilitando-as, todas, para a verdade de que elas, afinal, são efectivamente capazes. E é porque esta experiência não tem acontecido que hoje estamos nesta situação crítica em que a desonestidade, a falta de verdade e de competência de alguns acarreta dificuldades injustas em todos e compromete o nosso futuro colectivo. Urge que as famílias sejam legendas para a Verdade.
Marco Gomes, Director pedagógico da APEL