Não me pusera a gritar, como o Artur, na tripeça de til preto: "Vou emigrar! Vou emigrar!" Mas, como essa personagem de Horácio Bento Gouveia, sentia insuficiência de mundo. Parti numa manhã de Setembro de 1994. Levava peso a mais - na mala e na alma. Para trás ficava a ilha - a aldeia, a família. Lá à frente ficava o continente - a cidade, a universidade. A minha identidade, como a de Artur, assemelhava-se à alvorada. Algo já era dia em mim, mas havia tanto por cumprir! No campus da Universidade do Minho, a ilha encostou-se ao meu nome, como se fosse parte dele. Havia várias Anas, várias Cristinas naquela turma feita de raparigas de muito lado (rapazes poucos e delicados). Eu era uma rapariguita como as outras, mas a única vinda da ilha. Não sabia se gostava daquilo ou se não gostava daquilo. Aquilo tinha qualquer coisa de caserna - e eu não gosto de guerra, de hierarquia rígida, de disciplina férrea, de farda; gosto de liberdade e de mar e de serra forrada de vinháticos, urzes, faias. Lembro-me de sofrer a angústia do ilhéu desterrado numa cidade de interior com um esgoto a fazer as vezes de rio. E de aproveitar (e de incentivar) idas de amigos ao casino da Póvoa de Varzim só para caminhar ao lado do Atlântico - cheirá-lo, vê-lo, ouvi-lo remoer. Nessa altura, as más notícias vindas do arquipélago colavam-se-me à pele, como suor numa tarde tropical. Recordo-me de ser atacada por uma amiga porque o senhor da ilha aparecera em trajes menores nas páginas do extinto Tal & Qual. Era 1997 e fora fotografado a mudar de roupa para o desfile de Carnaval. "O que é que eu tenho a ver com isso?!", perguntei. Episódios como esse tornaram-se progressivamente mais raros. Talvez por me ter distanciado. Braga nunca foi a minha casa. A minha casa era São Vicente aonde tornava pelo Natal, pela Páscoa, pelo Verão. Há 11 anos mudei-me para o Porto e o Porto é a minha casa. Como o poeta Manuel António Pina, nascido no Sabugal, eu precisava de renascer. "Eu nasci-me a mim mesmo no Porto", diz ele. O Sabugal é o lugar da sua infância, "um sítio para pousar a cabeça". E o Porto é o lugar da sua maturidade, um sítio com qual um dia se confundirá: pó, ar. Sou uma cidadã do mundo, como qualquer viciada em viagem. Tenho uma cidade e uma aldeia às quais regresso sempre. E é por ter a minha cidade fora e a minha aldeia dentro que estou aqui a escrever a minha primeira crónica mensal sob o lema: Madeira Vista de Fora.

Ana Cristina Pereira, Jornalista do Público