É dado assente que a ficção imita a realidade, mas a realidade é, por vezes, muito mais eficaz a imitar a ficção. Talvez porque lhe falte a imaginação para ser essa coisa concreta de que se faz a vida. Nos livros já está tudo escrito, preto no branco, sem ser preciso inventar mais nada. Nestes dias em que o Orçamento e a sua lógica nos invadem a existência, lembrei-me de um dos personagens de Gonçalo M. Tavares. O Senhor Krauss, na tentativa de explicar que pagar impostos é o melhor que pode acontecer a um cidadão, apela a uma estratégia pedagógica, que se deveria desenvolver, tanto quanto possível, em complexas fórmulas e complexos raciocínios económicos. Para tal, o Governo deveria investir em publicidade técnica e obscura e contratar muitos economistas. No fim, os mais de 32 mil técnicos, que tinham a particularidade de serem muito bem pagos, apresentaram um relatório sobre a economia do país em mais de seiscentas páginas e um índice. Ora digam lá se a realidade não imita muito bem esta ficção. Ou, se preferirem, digam lá se a ficção não imita muito bem esta realidade. Para o caso vai tudo dar ao mesmo. É como a história do ovo e da galinha. Por muito que se discuta, a verdade é que existem ovos e galinhas, independentemente da hierarquia que ocupam no seu processo de criação. O mesmo acontece com a economia. Podemos não entender muito bem como funcionam as finanças, podemos ter dificuldade em perceber a lógica do Orçamento de Estado, e não conseguir entrar, com a clareza suficiente, nas regras dos mercados internacionais e na posição que ocupamos nesse xadrez. O certo é que, mesmo sem percebermos nada de tudo isto, o resultado será sempre igual: vamos pagar na mesma. E, na lógica barata da sabedoria popular, vai sair-nos muito caro. O resto, as grandes discussões, as grandes teorias, os relatórios, as propostas, as contra-propostas, as análises, os diagnósticos e prognósticos, ficam lá nessa obscuridade pedagógica do Senhor Krauss. Por muito paradoxais que sejam os dois conceitos. Afinal, tal como a ficção e a realidade, o país também se divide nessas duas esferas autónomas que separam os que discutem dos que são discutidos. Apesar de parecerem o mesmo corpo, nunca se misturam para bem da pedagogia e da obscuridade.