A pergunta tem direitos de autor. Era repetida em jeito de piada pelos ‘Contemporâneos’, na RTP. Lembrei-me dessas rábulas numa conversa sobre a ocupação de lugares nos mais diversos patamares da sociedade madeirense.

Sem grande esforço, qualquer cidadão conclui - e muitos até o afirmam à boca cheia- que "isto está tudo controlado". Isto é a coisa pública, os lugares que a política distribui e os que a sociedade cria. Não é novidade para ninguém que, de facto, isto está tudo controlado. Que o Governo é PSD, que as Câmaras e Juntas (salvo quatro freguesias) são do PSD, que os clubes são liderados por gente afecta ou militante do PSD, que as associações, desde as de estudantes até às empresariais ou de solidariedade social, são geridas por cidadãos próximos do PSD, que as Casas do Povo estão na mão de dirigentes pró-PSD. Mais: que as associações de pais, as confrarias paroquiais e tudo o que mexe tem quase sempre alguém do partido da maioria como protagonista. É verdade!

Agora pergunto: E porque razão se afasta a oposição (ou as oposições, como agora se diz) destes cargos? O que impede um militante socialista ou de outro partido de se candidatar a uma Casa do Povo ou a uma instituição social? Já sei a resposta de muito boa gente da oposição: "O governo cortava logo os subsídios". Não é bem assim. Mesmo sabendo que as coisas seriam dificultadas - basta lembrar o que fez o Governo Regional à Câmara de Machico no tempo dos ‘manos Martins’ - a verdade é que há leis e há critérios mínimos. Mesmo que às vezes desrespeitados, alguma coisa ficaria.

Há ainda a grande probabilidade de uma candidatura conotada com algum partido da oposição perder copiosamente um qualquer acto eleitoral. Mas mesmo essa circunstância não deve obstaculizar uma forma de participação activa, política e cívica. É melhor estar por dentro de um qualquer projecto em minoria e ter legitimidade para o discutir, do que passar a vida a olhar e a criticar sem nada fazer.

Há um outro aspecto: participar nestas coisas dá muito trabalho e pouco ou nenhum rendimento. Organizar eventos, promover iniciativas, por mais simples que sejam, implica assumir compromissos, horas de trabalho, às vezes noites mal dormidas e um esforço nem sempre reconhecido. Eu sei que também há o outro lado, o da visibilidade, do quentinho das cadeiras dos pequenos poderes. A tudo isso, em relação à oposição, acrescenta-se outro motivo de interesse numa maior participação: o de mostrar que são tão ou mais capazes dos que os do poder. Veja-se, a título de exemplo, o que se passa na Escola Gonçalves Zarco. Talvez beneficiando do desinteresse dos professores em assumir a presidência do Conselho Executivo, Rui Caetano, vice-presidente do PS-Madeira e vereador na Câmara do Funchal, candidatou-se e ganhou. Agora tem oportunidade de mostrar o que vale. E tem, certamente, muito mais trabalho e preocupações do que se fosse apenas professor. Curiosamente, este exemplo é raro na oposição. O mais frequente é o comodismo e a longa espera por um lugar garantido. De preferência de deputado, que isto de ser vereador ou membro de uma Assembleia de Freguesia pela oposição dá muito trabalho e pouco rendimento.