É impossível ficar alheio ao contexto actual de incerteza em relação à nossa situação económica e financeira, ou não ficar perplexo com o posicionamento dos nossos responsáveis políticos, face à dimensão da nossa dívida pública. A começar pelo argumento de que "aprovar o Orçamento de Estado é essencial para acalmar os mercados"e não por ser um instrumento indispensável ao desenvolvimento da acção governativa. O Governo parece estar à ordem dos "mercados", uma entidade sem rosto, que recomenda medidas para a crise. E elas chegam-nos de convergentes vozes insuspeitas: as instituições europeias, a OCDE, o FMI, todos respaldados nos pareceres das agências de rating! Surpreendente a concepção de Estado Social dos nossos governantes e a estratégia que apontam para o salvar e combater a crise das finanças públicas: pôr quem não teve nada a ver com a crise a pagar, reduzindo prestações sociais e cortando salários, entendidos como custos e despesa, à boa maneira dos defensores do mercado, ainda que em consequência se preveja o agigantar do fosso entre os ricos e os pobres . Não deixa de ser irónico que em Ano Europeu de combate à Pobreza e Exclusão Social, se vá agravar as desigualdades no país da Europa onde elas são mais profundas e onde os índices de Desenvolvimento Humano estão no fundo da tabela, ao invés de, no respeito pela filosofia em que o Estado Social assenta, se procurar uma ideia inovadora e oposta à visão assistencialista tradicional, de ajuda aos necessitados. Para o Estado Social, o combate às desigualdades, mais do que um custo ou despesa orçamental, é uma acção preventiva dos problemas sociais, mola do desenvolvimento dos povos. Impõe-se, sem dúvida, uma profunda reflexão sobre as finalidades originais do Estado Social, uma forma de organização política e social direccionada para o apoio colectivo do Estado aos cidadãos em situação de carência económica, nascida no contexto da Grande Depressão dos anos 30 e consolidada a Ocidente, no pós-II guerra Mundial. No nosso país, o Estado Social só conheceu algum impulso na sequência do 25 de Abril, quando se acreditou na utopia de proporcionar a todos o acesso a condições de vida digna, desde o direito à habitação, ao trabalho, à educação, à saúde, ao lazer à cultura e ao bem-estar, preceitos inscritos na nossa Constituição, da responsabilidade do Estado, agora em causa. Mas a actual submissão dos nossos decisores políticos às orientações financeiras vindas de fora, com os consequentes reflexos na acção política, levanta ainda a questão da soberania. Afinal quem é que decide as linhas governativas do país? Quem fiscaliza essas entidades que se sobrepõem à vontade popular? Inevitável é, nestas circunstâncias, questionar o valor da democracia e o papel de governos sufragados pelo voto. Será que a partir daqui, e em futuros actos eleitorais importará acautelar se a Moody's, a Standard and Poor's e outras que tais já escrutinaram os programas eleitorais dos partidos candidatos?
Júlia Caré