«O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.» * E o que tem isto a ver comigo? Perguntará o leitor. Então não nos lançam, quase diariamente, para um inferno de róseas labaredas, querendo consumir-nos até ao tutano? Tirando o tom mais ou menos quente das ditas, é o que vejo e sinto. Mas vejo também que existem caminhos e artes que se abrem e nos protegem. O desafio será tentarmos perceber, no meio de todos os fogachos, uma maneira de seguirmos em frente. De não cegarmos. Disse há uns tempos, num outro sítio, que era um cidadão-fotógrafo e que, enquanto cidadão, me preocupava com o lugar onde vivia; mas enquanto fotógrafo, procurava estar atento ao que se ia fazendo pelo mundo. Portanto, as palavras que aqui vai ler terão âmbitos variáveis e referirão coisas diversas; de algo que vivi em algum lugar, a algo que me ocupa o pensamento. Este será um espaço de partilha do que me vai na alma e do que vou experienciando. Só espero que para si isto faça algum sentido. * Italo Calvino em As cidades invisíveis.

Carlos Soares, Fotógrafo