ML Para uma pessoa como eu, que não percebe nada de economia, este fim de semana foi deveras instrutivo. No telejornal da RTP de domingo, apareceu um gestor com soluções brilhantes para a crise: mudar o chip na nossa cabeça e pô-lo em modo "poupar", sugerindo comer em casa, comprar produtos de marca branca, não utilizar o carro, prescindir do ginásio e das roupas de marca… e tudo isto tomando como exemplo uma família com 80.000 euros anuais. Perguntas que coloco: em termos percentuais, quantas famílias auferem deste rendimento? O que vai acontecer às pequenas empresas? No mesmo noticiário, uma cozinheira deu dicas para tornar os pratos mais baratos. Uma sugestão foi juntar uma cebolada a restos de peixe frito, afiançando que dá para petiscar o resto da semana, o que me deu um significado mais substancial à palavra "restos"e uma nova noção do tempo. O outro conselho foi perdiz com couve lombarda. Interrogo-me: o que é perdiz? É mais barato que frango? Mas outro galo cantou no "Plano Inclinado" (leia-se A Pique) da SIC, no sábado. O painel foi unânime quanto ao OE, que toma medidas para aumentar as suas receitas e pouco ou nada faz no corte de despesas, não solucionando o problema e antevendo-se um quadro ainda mais negro a curto prazo. Questão: porque aceitamos o tal chip, se não é para todos? Aceitamos, porque o conformismo fatalista faz parte da genética colectiva. Vivemos "numa cabana com um submarino à porta" e vamos um bocadinho de TGV e o resto a pé ou de burro a apreciar a paisagem? Assim seja! Temos instituições, tachos, altos cargos, mordomias e carros a mais? Ámen! Temos salários baixos, andamos de tanga, mas vamos apertar mais o cinto? É a nossa cruz, vamos comer perdiz com couve lombarda! É a hora de mudar o chip da cidadania! Acata-se patrioticamente o que é impingido pelos representantes de 36,55% dos eleitores, mas 40,26% deles nem foram votar! Por isso, quando estivermos em casa a levantar charolas de cebolas para melhorar a musculatura, pensemos no voto como uma obrigação a que ninguém deve ficar alheio, porque parece que ainda não foi compreendido, por nós nem por eles, que somos nós que os pomos e os tiramos de lá! Se no nosso trabalho ou empresa damos com tudo em pantanas, temos de arcar com consequências: olho da rua, prisão; perante as irresponsabilidades do governo, deste ou de outro, agora e sempre, barafustamos é certo, porque também faz parte do código genético português, mas no final de contas concordamos e deixamos andar, logo se vê no que vai dar! Por isso, enquanto se caçam umas perdizes, vamos reflectir como é legítimo passarmos a considerar crime a gestão desastrosa dos dinheiros públicos e exigirmos responsabilidades aos melros que pusemos no poleiro! É hora de acabar com esta conversa estéril de direita e esquerda, leste e ocidente, que já era ! Enquanto fazemos a pé e com as sapatilhas do chinês o percurso casa/emprego (se ainda o tivermos), analisemos o panorama europeu. Onde está a melhor tabela salarial, a maior produtividade, o exercício da política de forma ética e responsável, uma administração transparente e sem excessos despesistas, porque controlada por cruzamento de dados acessíveis a todos, em suma, uma cidadania consciente? Nos países nórdicos. É para o Norte que devemos olhar e aprender alguma coisa. Ah! Isso é outra gente, outra mentalidade! Pois é, mas esse é o chip que temos de adoptar, se quisermos que o bacalhau da Noruega continue a ser o prato nacional!