Falhamos. Admitamo-lo de uma vez por todas e deixemo-nos do jogo do empurra- empurra. Há mais de cinco séculos iniciámos um processo de decadência ao qual, infelizmente, nenhum sistema ideológico nem partido político soube pôr cobro. E hoje estamos como estamos. E não por falta de aviso. De Camões a Pessoa, portugueses esclarecidos e intelectualmente honestos gritaram que o país, então império, estava a afundar-se. E nós nada fizemos. Pior: ignorámo-los. Porque em Portugal a verdade dói. Porque em Portugal houve, desde sempre, um divórcio incompreensível entre a classe pensante e a dirigente, devido, talvez, a esse terrível complexo de superioridade de que sofrem os povos que, como o nosso, a fortuna bafejou com um momento de grandeza, mas que não nasceram para ser grandes. Simplesmente porque não têm capacidade para ser grandes. Esse complexo, dizia eu, traduziu-se - e traduz-se - no olhar de sobranceria que sempre ostentámos face à inteligência nacional, a chamada prata da casa que, no nosso caso, até é de ouro. Somos pequenos em tamanho e em mentalidade, incapazes do gesto de humildade de escutar, de aprender. E, por isso, repito, estamos como estamos. E, por isso, acrescento, vivemos na era dos analistas, comentadores e antigos dirigentes, sejam eles ex-presidentes da República, sejam ex-governantes, sejam ex-líderes partidários, que agora sabem tudo, percebem de tudo, mas que na altura em que podiam agir, nada ou muito pouco fizeram. E, por isso, concluo ainda, não conseguimos sair deste ciclo vicioso que é o de arranjar soluções imediatistas para problemas seculares que têm a ver com a predisposição natural que o povo português sempre teve para dar o passo maior do que a perna. Somos pobres e armámo-nos em ricos. Julgámos que imitar o que vai lá fora bastava para fazer de nós um país europeu. Passámos a tratar por tu o vizinho, a ter muito glamour, a ganhar chorudos ordenados, a fazer viagens de imperadores, a construir obras megalómanas, em suma, a alimentar a futilidade que deixa a nu a nossa irremediável pequenez. E agora estamos lixados. E agora a culpa é de todos, mesmo daqueles que nunca foram ouvidos, mesmo daqueles que avisaram a tempo e horas, mesmo daqueles que trabalham 12 horas por dia para garantir o seu sustento.
Para alguns pensadores, o mal de Portugal foram os Descobrimentos, esse bafejo de grandeza da nossa História que nos fez acreditar que a riqueza se constrói lá fora e não cá dentro. Eu atrevo-me a discordar. O mal não data de Quinhentos, mas desse momento fatal em que deixámos de ser racionais e construímos uma imagem de nós próprios que só existe nas nossas cabeças.
Eker Sommer