Os episódios de roubos na Rua Dr. Fernão de Ornelas são dignos de um filme, melodramático, a meu ver, porque de policial não têm nada. Porque ninguém espera que um delinquente encapuzado, de óculos de sol, chapéu de pescador e sobretudo de cabedal com cabeção subido assalte um banco em plena luz do dia, perante cafés apinhados de gente e faça uma maratona em meia baixa da cidade com notas no bolso e empunhando uma pistola ninguém sabe feita de quê, entre gritos de ‘apanha que é ladrão’ e se esfume sem que apareça um polícia – igualmente armado – que seja.Nem mesmo um daqueles agentes infiltrados que, há tempos, andava por aí nas esquinas da cidade a denunciar os automobilistas que conduziam sem cinto, num esquema engenhoso que roçava, bem no limite, a ilegalidade, mas que rendeu um punhado de multas aos cofres da Região.

E este não é, infelizmente, um caso isolado. O indivíduo que roubou a agência do BPI da Fernão de Ornelas está a monte. E o que assaltou a sucursal do Montepio Geral, na Ajuda? E o autor do roubo de 400 mil euros na ourivesaria na Estrada Monumental? Ou ainda o delinquente que levou as jóias da ourivesaria da Sé?

É um paradoxo, mas a insegurança aumenta à medida que a PSP aposta no chamado policiamento de visibilidade, para incutir na população um sentimento de segurança - um conceito importado das grandes cidades europeias, onde a escala de meios pertence a outra dimensão. Ora, por cá, quando os tais ‘polícias para inglês ver’ são posicionados na placa central da Avenida Arriaga, desmembra-se o policiamento da operação ‘Comércio Seguro’, que por sua vez desmobiliza o ‘policiamento de proximidade’ dos bairros e o novo programa para as zonas altas que mais ninguém ouviu falar. Se temos o mais baixo ‘rating’ do país de agentes por população porque se insiste em ludibriar o cidadão com estas operações de charme?

Talvez o aumento de 36 milhões de euros que o Governo pretende encaixar no próximo ano com a caça à multa explique o porquê de, no caso da Madeira, termos uma super esquadra de Trânsito, armada até aos dentes e uma Esquadra de Investigação Criminal com meia dúzia de agentes à civil que se arrastam em velhas carroçarias. Tudo isto é uma hipocrisia atroz: para caçar multas na estrada montam-se esquemas melindrosos; para prevenir crimes contra as pessoas e o património implementa-se o policiamento de proximidade...

Nesta conjuntura de crise económica-financeira e de pressão do controlo da despesa, nunca as receitas extraordinárias indirectas tiveram tanta importância nas contas do relatório do Orçamento de Estado. Mas o que ninguém quer ver é uma Polícia de Segurança Pública transformada numa brigada de inspecção das normas do Código de Estrada e com metas de cobrança pré-estabelecidas.