The times, they are a changin’, cantava Bob Dylan na sua voz fanhosa, comendo palavras mas espalhando ideias. Os tempos pareciam de mudança. E foram. Pelo meio houve lutas de rua, protestos, de tudo um pouco mas, na década de 60 algo mudou no Mundo. Com erros, é verdade, mas com participação e entrega. Os tempos eram de crise económica e social, como hoje. Os sinais de mudança também. Num mundo noticioso dominado pelos ‘reality shows’, poderá passar despercebido, entre os ‘Morangos com Açúcar’ e as asneiras da Júlia Pinheiro que em França as ruas estão cheias de jovens a protestar, camionistas a bloquear as refinarias e que na Grécia, primeira vítima da ditadura dos ‘mercados’, os trabalhadores fecharam a milenar Acrópole. Nos dois casos, não são arruaceiros nem ‘hooligans’, são gente comum que foi apanhada no rolo compressor de uma crise que tem culpados que, por uma tenebrosa ironia, são os primeiros beneficiários dos remédios extremos que a classe político-económica inventou. O ‘mercado’, essa figura anónima criada pela banca e pelos especuladores financeiros que sustentam os partidos políticos e as ditaduras - sem qualquer tratamento especial para os primeiros -, determinou que é preciso apertar, cortar nos apoios sociais, reduzir salários, despedir pessoas. A crise, provocada pela irresponsabilidade dos bancos que jogaram na roleta com o nosso dinheiro, será paga por quem trabalha. Há uns dias, os quatro maiores banqueiros portugueses foram visitar os lideres do PSD e do PS, saíram sorridentes. Nenhum tinha qualquer sinal de privação, os fatos eram Armani, as fortunas imaculadas. A esses, de certeza, não tocará qualquer apertar do cinto. Mas os tempos cheiram a mudança. Ainda é um odor ténue, mas dá para perceber. O Povo, essa outra entidade que segue as leis da Natureza, poderá voltar a aplicar as regras de Darwin e eliminar as espécies infestantes. Já fez o mesmo com os capitalistas selvagens, os comunistas ditadores. Pode levar muito tempo, mas também poderá eliminar o ‘mercado’ e tudo o que ele arrasta. Pelo menos já está nas ruas, mesmo que seja só em França, de onde saem, por regra, as grandes lições de resistência.