Pegou em moda. Para pagar a dívida do cartão de crédito, a conta da luz e da água ou as compras do mês do supermercado procuram-se entre os brincos da avó, o relógio do avô, o colar do baptismo ou os pendentes herdados da tia solteira. As jóias de família, guardadas e acarinhadas mais pelo seu valor sentimental, são agora tratadas como um garante de pagamento disto ou daquilo. O negócio do ouro está aí e o número crescente de espaços que se disponibilizam para comprar as peças comprova que são cada vez mais as pessoas que se desfazem dos anéis e dos colares em busca de dinheiro fácil. Os tempos não são para brincadeiras e as medidas de austeridade também não. As famílias vão pagar cada vez mais IRS e IVA, fazem-se as despedidas ao abono e às majorações e implora-se ao patrão para não perder o emprego. As estatísticas dizem que há dois milhões de pobres em Portugal, mas a mim custa-se a acreditar. Serão mais certamente, muitos mais… Podem não ser considerados pobres, mas para lá caminham. Porque perderam o emprego, porque têm de entregar a casa ao banco, porque contam os cêntimos para conseguir o jantar, porque pedem, envergonhados, ajuda às associações, porque são capazes de vender mesmo os mais pequenos tesouros de família para tentar sobreviver. E são esses os esquecidos. Os tais que fazem parte dos dois milhões ou os outros tantos que para lá caminham. Nos cortes orçamentais, nos cortes das despesas públicas, não são aqueles que ganham mais do que 1.500 euros por mês que vão sofrer, ou os ministros que não podem trocar de carro tão cedo, ou as empresas públicas que se vêem impedidas de contratar mais um amigo ou afilhado. Em tempo de crise é quem está no fundo do poço, ou perto dele, que mais se sentirá a afundar, porque na falta dos anéis para vender, só restam mesmo os dedos.

Ana Luísa Correia