O presidente do PPE afirmou ontem, no Funchal, que pela forma como funciona a burocracia em Bruxelas, é absolutamente normal que a Madeira ainda não tenha recebido um tostão da prometida solidariedade europeia. Joseph Daul garantiu que tudo irá fazer para alterar esta normalidade, mas, seguindo a lógica desta União, o mais provável é que o processo de alteração se perca pelos vastos e longos corredores do Parlamento Europeu. Afinal, o esquecimento, a lentidão e a burocracia não causam grandes transtornos no conforto dos sofás e dos gabinetes dos tecnocratas, onde as ribeiras não transbordam e onde não chegam as vozes de desespero daqueles que, no Trapiche, voltaram a temer a chuva e a fúria da água e da lama. Mas aquilo que é normal em Bruxelas não faz, com toda a certeza, grande sentido para Délia Sousa. A mulher que, na última sexta-feira, voltou a perder o pouco que tinha recuperado de tudo o que se foi com a corrente naquele dia 20 de Fevereiro. É claro que, em Bruxelas, ninguém sabe quem é a Délia, ninguém sabe que, no sítio do Trapiche, o coração chega às mãos quando a chuva cai impiedosa, ninguém sabe que o ribeiro galga as margens em locais onde muito pouco se alterou depois da tragédia. A normalidade segue o seu curso nos corredores do poder, com a mesma força com que a água se desvia do seu percurso e corre estrada abaixo, galga os muros, invade as casas e derruba a esperança de quem se cansa e perde o rumo na espera. Infelizmente, há muita coisa que é considerada normal dentro da anormalidade em que vivemos. Acontece com as verbas solidárias que tardam, como o desemprego que aumenta, e até com o mau desempenho das escolas. É tudo normal. Tudo desvalorizado e tudo explicado com uma lógica que nos escapa, que nos entorpece ou que nos esmaga. O 'ranking' das escolas é produzido em Lisboa, o esquecimento é produzido em Bruxelas, mas a angústia cresce por cá. No Trapiche, no sistema de ensino, no desemprego. No entanto, é tudo normal. E se um dia nos dermos conta da anormalidade que por aqui grassa, já há remédio oficial anunciado: emigrar...
Raquel Gonçalves