"Há que mudar a vida. Se não mudarmos de vida não mudaremos a vida" José Saramago Estamos a viver um tempo muito difícil e complexo. As propostas apresentadas pelo Governo para a redução do deficit e da despesa pública, com as quais devo dizer desde já que não estou de acordo, incidem particularmente e, algumas delas em exclusivo, sobre trabalhadores da Administração Pública, em que se incluem os professores. Desde 2005 e, sempre usando o mesmo discurso e invocando as mesmas razões, que os professores e educadores sentem o peso asfixiante destas medidas expressas no congelamento do tempo de serviço e das progressões e promoções nas carreiras, na revisão das próprias carreiras com eliminação ou redução de direitos, agravamento e desregulação de horários de trabalho, no aumento dos níveis de precariedade, no agravamento dos requisitos para a aposentação e na degradação das pensões ou no aumento de descontos para fins sociais e da carga fiscal por via directa (IRS) ou indirecta (IVA). Hoje, cinco anos depois, de absoluta desgovernação e em que todas as medidas propostas, aparentemente, não resultaram, todos os trabalhadores portugueses e, no imediato, os da Administração Pública e os docentes portugueses vêem-se confrontados com um novo conjunto de medidas de que se destacam: redução efectiva de salários; novo congelamento de carreiras, congelamento de admissões nos quadros, redução do número de docentes contratados e, entre outras consequências, reduções de verbas para o Ensino. Hoje, como ontem, são sempre os mesmos a sofrerem as consequências de políticas mal definidas e mal aplicadas, como forma de resolver crises que não provocaram. Estas medidas não são uma inevitabilidade, são uma opção política de quem, afirmando-se corajoso, se limita a usar o poder que detém para atacar os que menos têm e menos podem. Como se a crise social não fosse já de si dolorosa, estas medidas não farão mais que a agravar. E se, como cidadãos, não podemos deixar de nos questionar sobre o precipício para onde nos empurram, como se de um fatalismo se tratasse, como educadores e professores temos a obrigação de denunciar que um ataque aos serviços públicos é, também, um ataque à Escola Pública, ao Estado social e à própria democracia. Nós, Professores e Educadores, assumiremos esse dever com a responsabilidade acrescida de quem abraçou a profissão de Professor, uma profissão com futuro. Contudo, a luta que se avizinha, é a luta de todos os que acreditam que é possível construir um futuro colectivo com justiça e equidade. Esta luta é minha, é sua, ninguém está dispensado. Ninguém pode cruzar os braços porque se trata do nosso futuro e, se não for por nós construído, ninguém no-lo oferecerá.
Marília Azevêdo