Para a população do Seixal, maioritariamente rural, o Chão da Ribeira sempre representou a sua reserva agrícola por excelência onde se cultivam as inconfundíveis «semilhas do Chão da Ribeira» e outros produtos da terra (couve, feijão, maçaroca de milho, etc.) e onde se guardava o gado em palheiros apropriados.

As colheitas faziam-se por campanhas em épocas determinadas e a alimentação de quem trabalhava então a terra (do próprio ou a soldo) era transportada a pé, desde os casais á beira-mar, em cestos ou «balaios».

Com a abertura da estrada de acesso e o aparecimento da «casa de pasto» do Sr. Justiniano os hábitos alteraram-se e deu-se a conhecer aos forasteiros, designadamente do Funchal, este planalto bucólico, cavado entre montanhas de «floresta laurissilva» com elas formando um vale de rara beleza.

Mas, se a facilitação do acesso permitiu que as pessoas do Seixal, mesmo as mais idosas, se voltassem a empenhar no cultivo das suas terras porque as tarefas se viram simplificadas (o transporte de pessoas e bens ficou mais fácil) permitiu também que visitantes, ou simples passantes, viessem usufruir do lugar numa mera perspectiva de lazer.

E assim, o antigo «palheiro da vaca» onde se guardavam as batatas acabadas de cavar, e respectivas alfaias, passou a poder albergar um apoio de cozinha e sanitário para responder ás exigências de maior higiene e facilitação do modo de vida do seu proprietário.

Daí a alguns «oportunistas» do exterior espreitarem a oportunidade do negócio imobiliário-turístico foi um passo dado que importa conter e regulamentar.

Não se pretende naturalmente destruir as características rurais do Chão da Ribeira mas é justo reconhecer que com um Plano adequado, e que se faça cumprir, se deve dar a oportunidade a todos os que têm o seu bocado de terra e o cultivam, de disporem de um espaço mínimo para apoio á sua actividade em condições de trabalho e de vivência que não têm comparação com os hábitos primários de um passado ainda recente.

No PDM do Porto Moniz o Chão da Ribeira surge como «zona agrícola exclusiva» com fortes limitações á remodelação dos antigos palheiros, ou mesmo á construção de novos onde tal ainda se justifique, sem acolher uma realidade que já existe consubstanciada em palheiros renovados no respeito da traça local (pedra de basalto aparelhada) e a que é necessário dar enquadramento legal.

Há pois que assumir o futuro do Chão da Ribeira como um território de cultivo e de lazer, com alguns serviços associados, porque é essa a situação que já se observa hoje e que pode derrapar a prazo se não se criarem instrumentos adequados de ordenamento no respeito das vivências locais.

Mas, o que faz a Câmara do Porto Moniz para garantir esse futuro tão essencial á economia e ao bem-estar da população do Seixal e fixá-la á terra que a viu nascer?

Em lugar de pugnar por um Plano de Pormenor que acautele as valências mencionadas, assobia para o lado e deixa que se instale o vazio, deitando culpas para o Governo Regional que representa, e dele faz parte integrante, e deixando que este se acomode num relativo alheamento do problema porque porventura a sua ideia é outra e, essa, não serve o Chão da Ribeira.

Nuno Jardim Fernandes, Gestor