Se há elemento que caracteriza a sociedade madeirense de uma forma geral é o medo de falar. Falar em público, claro. O que é estranho. Na bilhardice, na intriga, na conversa de pé de orelha e nos debates de tasca, estamos quase à vontade. A coisa muda de figura quando se pede um nome, um rosto! A mudança é como da noite para o dia. Quem anda nestas coisas do jornalismo sabe do que falo. Fazer um inquérito de rua é o cabo das tormentas por que passam quase todos os estagiários. Até se consegue fazer as perguntas que queremos, muitas vezes há respostas pertinentes, mas com a séria advertência: "Não ponha o meu nome!". E fotografia muito menos. Apontar uma máquina fotográfica representa um abrupto terminar da confersa. É um ponto final, na maior parte das vezes. Lembro-me que há poucos anos coube-me essa tarefa de fazer uma reportagem e incluir um inquérito. A pergunta era simples: o que faz falta às zonas altas da freguesia da Ponta do Sol. Com muita insistência obtive cinco respostas com nome e fotografia. Pelo meio, levei 18 'negas'. Juro! Este medo em 'dar a cara' não se esgota nos inquéritos de rua. Acontece o mesmo quando tantos cidadãos apontam aspectos que não estão bem, mas fogem a sete pés, quando se pede um nome. "Ah isso não!", dizem dezenas, centenas deles. Acredito que não é por cobardia, nem sequer por falta de vontade. Mas é, sobretudo, revelador de dois aspectos com que se identifica a sociedade em que vivemos nesta terra: o desejo de evitar chatices e o medo de consequências. O medo de perder o emprego do senhor governo. O medo de prejudicar a família que trabalha para o governo. O medo de afectar de alguma forma os amigos, os vizinhos que têm alguém na família que trabalha para o governo. Dirão que estou a exagerar. Penso que não. E quem quiser tirar a dúvida que se meta à estrada. Que pergunte e que identifique as respostas. Depois falaremos. Outra manifestação desta forma de receio é a quantidade de cidadãos que usam e abusam do anonimato. Como muitos leitores desta plataforma já perceberam, a maioria dos comentários aqui publicados são feitos com pseudónimos ou, pura e simplesmente, sob anonimato. Compreendo que em alguns casos esse recurso seja aceitável. Mas assusta-me esta falta de coragem em assumir o que se diz, o que se sabe, o que se viu, ou apenas o que se pensa. Uma simples opinião, um insuspeito reparo é demasiadas vezes camuflado com a capa do anonimato. Esta sociedade anónima resulta depois numa incompreensível falta de sentido crítico, embora menor do que quando nem anonimamente se ousa criticar. E uma sociedade que não tem a capacidade de assumir uma crítica, é uma sociedade adormecida. Pior do que isso, será mesmo uma sociedade dominada, muitas vezes sem perceber, por um pensamento que se quer único. Seja ele político, desportivo ou religioso. Lamentavelmente, um povo que foi capaz de conquistar a Autonomia, desbarata agora qualquer esboço de visão crítica. É pena!

Miguel Silva