A ideia primeira, a minha íntima vontade, era aqui ser verde, positivo, optimista no fundo. Contudo, os pensamentos, levando-me a vários cantos, pararam no dia em que foram inaugurados os primeiros semáforos do Funchal, ali, na zona do Bazar do Povo. A minha mana e eu inventámos logo, dentro do carro em que nos levava a mamã, uma canção. Desde então soube que o mundo nos dá sinais que nos enchem de alegria e outras vezes de pânico. Depois chegaram-me à consciência as várias cores dos papéis que me deixavam juntar do chão depois de atirados dos carros dos partidos que os largavam na estrada. Tudo isso era felicidade ainda por cima em várias cores e formatos que às vezes, se tivesse sorte e o ar não fizesse das suas, apanhava aos molhos. Cada papelinho apontava um caminho de liberdade e acabavam quase sempre a fazer de notas para se brincar à venda ou num espeto a imitar a espetada para as teatradas nas coelhereiras. Com esta cara de Actor, com esta lata, que devem ter os mesmos - como Bruno Nogueira que gostaria de ter a dormir a meu lado, todas as noites, para me animar a alma - aceitei este desafio. As declarações de interesses ou de conflitos de interesses ficam para depois; os com todo o respeito, ou os permitam-me, etc., também. Seja, mas sinto-me, apenas Jornalista, Escritor, Poeta e Político, claro, nos espectáculos de que faço parte como actor, encenador, ou até na frente-casa e bilheteira. Dito isto... 3 altos quadros ouviram, nestes tempos não previsíveis, o apelo das guitarras portuguesas, meteram-se num submarino - que ao menos já está pago, safa! e cá vai disto: os três altos quadros, de submarino lá vão pelo Tejo acima, até ao portão abalroam o Terreiro, pois querem entrar saiem de lá os cabeçudos e põem-se a cantar: au, au, au, faz o Rato, miau faz a Lapa piu, piu, piu a Central quá, quá os que fazem Falta. os três altos quadros, não querem fazer mal, só querem brincar, pois é quase Natal. E é isto: sabemos trinar é certo. Parece é que só o FMI, a OCDE e mais uns tantos RATINGISTAS conseguem escutar o apelo das guitarras. Há sempre coisas, porém, que me vão afugentado o medo: os semáforos, por exemplo, continuam bem de saúde e como cresceram até já funcionam com leds, essas luzes poupadas, brilhantes que, como cada papelinho que levantei da estrada, me fazem sorrir, melhor, acreditar.

Élvio Camacho, Actor