Até há pouco tempo resisti à aquisição dos serviços ligados aos cartões de crédito, apesar de ter sido convidado a fazê-lo, quer através de inúmera correspondência recebida das instituições bancárias, quer através de funcionários e amigos colaboradores das mesmas. Mas um dia destes, por necessitar com alguma frequência de um serviço ao qual não podia aceder sem o referido cartão vi-me na obrigação de assinar o contrato para ter esse famoso cartão. Quando recebi em casa o dito objecto veio-me à memória uma história que se passou na minha adolescência e que me levou a colocar a seguinte interrogação: mas como tudo mudou em pouco tempo? A história é muito simples. Tinha eu uns 10 ou 12 anos e a minha mãe pedia-me que fosse espreitar as galinhas para ver quando é que elas punham o ovo para depois recolhê-lo e ir à mercearia trocá-lo por azeite ou vinagre. Hoje, passados apenas 35 anos, recebo um cartão de plástico que me permite adquirir alguns bens ou serviços sem ter produzido nada. À partida pode parecer uma coisa ridícula mas existe uma grande diferença: quando eu era adolescente, primeiro era incentivado a produzir para depois consumir, agora é quase o inverso, sou incentivado a consumir e só depois produzir. Mas a questão é: e se não produzir? É óbvio que não quero voltar a esse tempo em muitos aspectos, mas há outros em que seria bom que, no mínimo, pensássemos um pouco sobre eles, nomeadamente no que se refere ao consumismo e aos valores éticos e morais. A crise económica só termina quando cada um consumir apenas aquilo que produz ou no mínimo, como diz o povo, "nunca dar o passo maior do que a passada", porque a crise não é nada mais nada menos do que isso mesmo e é sempre proporcional ao passo e à passada de cada um.

Joel Freitas, Presidente da ACIN