Foi com esta frase, que um agricultor gaulês, interrompeu o discurso do então secretário regional do turismo e cultura, João Carlos Abreu, numa intervenção da sessão solene do aniversário da freguesia. Estávamos no limiar nos anos oitenta do século XX, e o problema da água de rega era a essência do dia-a-dia do agricultor, também ele fazedor de culturas. A cultura é uma palavra complexa e tem um sentido abstracto conforme o estrato social que a consome e frui. Para o humilde agricultor, a cultura é sinónimo de sustento, é a sua vinha, as suas semilhas e o seu feijão, que tanto tarda em regar. Daí que a água é o garante da sua "cultura", é o seu "axis-mundi", enquanto houver terra e forças para tirar regos e mantas e, depois, regar. João Carlos Abreu discursava sobre a riqueza da cultura gaulesa: terra de doutores, de adelos, de padres e de eminentes escritores. "Gaula é uma terra de Cultura", dizia. Do meio do salão paroquial, interroga o senhor José, agricultor: "Mas, senhor ministro, se não há água, como pode haver...cultura!"

Élvio Sousa, Arqueólogo e investigador