Esta é a verdade nua e crua. Portugal transformou-se num pano verde. Não de floresta, porque essa ardeu até ao Atlântico, mas num pano verde de mesa de poker. E nós? Talvez sejamos fichas? Fichas, não! Até porque são por demais preciosas. Somos mais baralhos de cartas, viciados, gastos, cartas rasgadas, amolecidas, sem cor. Já não sabemos as regras do jogo porque elas mudam e mudam e nem sequer pensamos que há muitas jogadas que parecem imbatíveis mas que são derrubadas no final da partida, quando, imagine-se!, o jogo parecia ganho. Enfim, vivemos com o sentimento primário dos ignorantes que é tentar ter opinião com a opinião dos outros, os tais que usam bluff atrás de bluff ao ponto de já não sabermos se é bluff ou não, porque estamos confundidos entre o que é verdade e o que é bluff. O próximo orçamento de Estado joga-se assim entre o PS e o PSD. Estica-se o elástico… até levarmos com ele na cara. Para não destoar são sempre os mesmos que ficam com a marca vincada na pele. O país está mal. Pois está. Há muito tempo. Não há líderes. Nem na política, nem na sociedade civil. Um vazio arrepiante. A ausência de princípios espalhou-se. Vale tudo. Vale omitir, dizer sim e não a intervalos curtos com o maior dos descaramento. Brinca-se com a vida das pessoas. Os novos chefes estão tão emaranhados em compromissos e interesses de gueto que deixaram de olhar nos olhos. A gestão das organizações uma lástima porque falta hombridade, carácter, não há comunicação interna, e a tão propalada importância dos recursos humanos ficou refém dos power points e daquelas reuniões de formação que poderiam ser pagas ao bocejo. As nossas lideranças são um pouco como os estudos encomendados e que deveriam ser instrumentos credíveis de tomada de decisão mas que só servem para adiar a decisão ou na melhor das hipóteses o decisor citá-lo. Pergunto-me, quem lê mil e tal páginas (não sei se os estudos são pagos à página) usando sempre o verbo no infinito: "incrementar o sector", "avaliar o potencial humano", etc. etc. palha e mais palha e falta sempre o essencial. Como? E o "como" são meia dúzia de linhas se houver planeamento, estratégia, táctica (são coisas diferentes) e se o decisor souber realmente o que quer. Se na governação assistimos a cenários destes, como serão as empresas privadas ou públicas? Igualzinho. Trabalha-se com o verbo no infinito, em clubes fechados, com incompetências, problemas graves de hierarquização e de partilha de informação. Afinal, chefe é chefe. Líder é outra coisa.
Lilia Bernardes, jornalista do DN-Lisboa, na Madeira