A reforma conhecida como "Processo de Bolonha" tem sido alvo dos mais variados comentários, muitos prendendo-se com aspectos técnicos e, por isso, pouco interessantes para o grande público. Não pretendo repetir ou prolongar essa discussão, até porque aqueles que nela se têm envolvido acabaram por se colocar em posições inamovíveis, o que é o melhor dos sinais da esterilidade da discussão. Interessa-me mais, como cidadão e como decisor, perceber o que efectivamente mudou com Bolonha. Para ensaiarmos algumas previsões, não precisamos, aliás, de saber muito sobre a reforma. Vejamos pois, o que é essencial saber: Bolonha aplica-se aos cursos das nossas Universidades e estabelece a existência de 3 ciclos de estudos diferenciados: licenciatura (1º ciclo), mestrado (2º) e doutoramento (3º). Bolonha procura consagrar a ideia de que o acesso ao 2º ciclo deve ser flexibilizado. Isto é, procura materializar a ideia de que o acesso a um mestrado é possível a partir de diversas licenciaturas e que uma licenciatura pode, e deve, dar acesso a mais do que um mestrado. Finalmente, Bolonha procurou introduzir uma padronização a nível europeu que permita a qualquer jovem diplomar-se num país e ver a sua competência e grau reconhecidos noutro, com o mínimo de burocracia. O ponto mais sensível desta reforma em Portugal foi a redução da duração das licenciaturas a 3 anos, o que representou uma alteração significativa do nosso sistema, e levou muitos a cair na tentação de materializarem a reforma concentrando nesses 3 anos o que antes se fazia em 4. Ora é essencial perceber que a natureza das licenciaturas mudou. No exercício de muitas profissões, a habilitação de licenciado terá de ser substituída pela de mestre. Algumas ordens profissionais, aliás, procederam já a esta alteração. Este facto implica o crescimento do número de estudantes de mestrado das nossas universidades, o que está já a acontecer. Muitos dos nossos jovens já perceberam a tendência e encaram hoje, com a maior das naturalidades, o facto de, após a licenciatura, prosseguirem os seus estudos com um mestrado, só depois saindo para o mercado de trabalho. Acredito que, no futuro, este será o percurso da maioria. Que retirar desta pequena observação sobre Bolonha? Em primeiro lugar, para aqueles que vão entrar para a Universidade: é mais importante pensar no mestrado que vão fazer do que na licenciatura por onde começarão. A questão fundamental é: qual o mestrado? A licenciatura a escolher poderá vir a ser uma de várias, desde que qualquer delas dê acesso a esse mestrado. Em segundo lugar, é fundamental flexibilizar a ligação entre primeiros e segundos ciclos e procurar acabar com o sistema de túnel em que temos vivido (no qual só se pode aceder a um mestrado a partir de uma única licenciatura, o que não é fácil. Mas ignorar a sua necessidade poderá ser o mais trágico dos erros. Muito se tem dito sobre o facto de, com Bolonha, saírem para o mercado de trabalho muitos jovens com menor preparação do que anteriormente. Trata-se de um fenómeno transitório. A prazo, a maioria dos jovens procurará o seu 1º emprego com o grau de mestre, isto é, com mais um ano de estudos do que antes da reforma e com um conjunto de competências diferentes e mais adequadas ao mercado de trabalho!
Castanheira da Costa