O País andou, nos últimos cinco anos, envolto na nuvem da propaganda do poder socialista que insistia em negar as dificuldades e em garantir que estávamos no melhor dos mundos. Só que as fantasias e as megalomanias pagam-se caras. Era bom de ver, no contexto da União Europeia em que nos inserimos e num quadro de elevada dependência externa, que a dureza da verdade ia-nos ser imposta de fora. E ela aí está, com toda a humilhação, que tínhamos a obrigação de ter evitado. Um Ministro do Governo da Sra. Merkel permitiu-se, sem o menor protesto do Governo Português, opinar sobre as medidas que Portugal devia adoptar. E elas aí estão, neste brutal PEC 3, que o Eng. Sócrates sempre negou ser necessário, porquanto os PEC 1 e 2 bastariam para fazermos face à crise em que estamos atolados. Claro que não chegam e o sempre negado aumento de impostos aí vem, com todos os seus brutais efeitos recessivos sobre a economia. E, mais uma vez, se exigem sacrifícios aos mais carenciados, aos funcionários públicos, e aos reformados, e manda-se o tão apregoado "Estado Social" às malvas, com cortes cegos nos subsídios de sobrevivência, nos medicamentos, na Saúde e na Educação. Estranha forma (ou talvez não!), de comemorar o 5 de Outubro e o Centenário da República, cujos desvarios nos conduziram a uma situação económica e financeira idêntica à actual e aos quase cinquenta anos de Ditadura que só findou com o 25 de Abril. Impressionante é a arrogância de um Primeiro Ministro de um Governo minoritário que, sendo o responsável pelo estado a que o País chegou, com um endividamento externo que absorve, em juros e encargos cada vez mais elevados, tudo o que produzimos. Este Primeiro Ministro que, por ter, por vontade do povo, um Governo minoritário, tem a obrigação de dialogar e de se aproximar das demais forças políticas, em especial do maior Partido da Oposição, com vista à viabilização do Orçamento. O que vemos é, mais uma vez, a máquina de propaganda socialista, a apontar baterias contra o PSD e a pretender considerá-lo responsável pelo aumento de impostos, pela redução de salários, pelos cortes na Saúde e na Educação. É preciso dizer ao Eng. Sócrates que basta de atirar para os outros responsabilidades que são exclusivamente suas - com viabilização ou sem viabilização do Orçamento! Com vinda, ou não, do FMI! Com saída, ou não de Portugal do Euro! É que qualquer das hipóteses que refiro estão sobre a mesa e, infelizmente, bem mais perto do que se possa pensar. E quando se cai em descrédito, como o Estado, as humilhações sucedem-se. Assim, a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa rejeitou, por alegada insuficiência curricular, a lista portuguesa de candidatos a Juiz do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. A par deste desaire, Portugal não conseguiu um só lugar de representante da União Europeia junto dos PALOP, de nada tendo valido a língua comum e a nossa histórica experiência e conhecimento daqueles países. Mas não queria terminar, apesar de tudo, com pessimismo. Queria aqui referir a inauguração do Centro de Investigação e Ciência da Fundação António Champalimaud, que será um dos melhores do Mundo e prestar aqui a homenagem devida ao seu instituidor e a Leonor Beleza que, identificada com o espírito e vontade do fundador, está a realizar uma obra impar, que muito vai prestigiar Portugal e prestará um serviço único, não só aos portugueses, mas à ciência e à investigação a nível mundial. Que haja, ao menos, alguns sinais de esperança!
Guilherme Silva